Vigiai: O Bem Também Precisa Ser Alimentado

O mundo nos coloca diante de escolhas todos os dias. Algumas são grandes e capazes de mudar completamente o rumo de nossa vida; outras parecem pequenas e quase insignificantes. Entre elas, porém, existe algo em comum: a possibilidade de escolhermos aquilo que consideramos certo ou aquilo que sabemos, no íntimo, que não deveríamos fazer. É nesse território silencioso das decisões cotidianas que o bem e o mal disputam espaço dentro de nós. Talvez por isso a palavra vigília tenha um significado muito maior do que simplesmente permanecer acordado durante a noite para rezar. Estar em vigília também significa permanecer atento a nós mesmos.

Fazer o que é errado muitas vezes parece oferecer resultados mais rápidos. A mentira pode resolver momentaneamente um problema. Um atalho pode proporcionar vantagem. Uma atitude egoísta pode nos beneficiar imediatamente. Uma pequena desonestidade pode parecer conveniente quando ninguém está olhando. É justamente aí que mora uma das grandes tentações da existência: o mal frequentemente oferece recompensas imediatas, enquanto o bem exige paciência, consciência e perseverança.

Mas aquilo que parece vantagem hoje pode transformar-se em peso amanhã. Quando repetimos pequenas escolhas erradas, elas deixam de ser exceções e começam a formar hábitos. E os hábitos, com o tempo, ajudam a construir aquilo que somos. Da mesma maneira acontece com o bem. Uma atitude correta talvez não produza aplausos nem recompensa imediata, mas cada escolha feita com honestidade, respeito, solidariedade e amor acrescenta alguma coisa à nossa construção interior.

Por isso precisamos alimentar o bem.

E alimentar o bem exige vigilância.

A oração ocupa um lugar importante nesse processo porque nos convida ao silêncio, à reflexão e ao encontro com Deus. Quando rezamos verdadeiramente, não estamos apenas pedindo alguma coisa. Também estamos olhando para dentro de nós. Reconhecemos nossas fraquezas, agradecemos, pedimos discernimento e encontramos forças para enfrentar pensamentos e tentações que poderiam nos afastar do caminho que desejamos seguir.

Mas a vigília não termina quando acaba a oração.

Ela continua na maneira como ocupamos nosso tempo.

Uma mente abandonada permanentemente ao vazio pode tornar-se terreno fértil para pensamentos que nada acrescentam. Por isso trabalhar, estudar, pesquisar, ler, praticar esportes, cuidar da família, ajudar alguém, desenvolver uma habilidade, contemplar, rezar e realizar atividades úteis também podem representar formas de vigilância. Ocupar a vida com aquilo que constrói diminui o espaço daquilo que nos destrói.

Isso não significa viver numa batalha permanente contra nós mesmos, como se qualquer prazer ou descanso fossem condenáveis. Descansar também é necessário. Divertir-se faz parte da vida. Conviver, sorrir, celebrar e aproveitar os bons momentos são presentes da existência. A questão está em não permitir que nossa liberdade seja dominada por aquilo que nos afasta dos valores que escolhemos para conduzir nossa caminhada.

A fé nos ajuda justamente a compreender que cada amanhecer representa uma nova oportunidade. Deus não nos entrega uma vida pronta. Ele nos concede tempo, possibilidades, encontros, talentos e escolhas. E talvez uma das maiores manifestações de Sua confiança em nós esteja justamente na liberdade que recebemos para decidir o que faremos com tudo isso.

Podemos errar — e certamente erraremos muitas vezes. A espiritualidade não transforma ninguém em alguém incapaz de falhar. O que ela pode fazer é nos ensinar a reconhecer o erro, pedir perdão, corrigir o caminho e começar novamente. Crescer espiritualmente não significa nunca cair; significa não transformar a queda em moradia.

A cada manhã recebemos outra oportunidade.

Outra oportunidade de sermos mais pacientes. De perdoarmos. De trabalharmos honestamente. De estudarmos. De ajudarmos alguém. De corrigirmos uma atitude. De abandonarmos um hábito que nos prejudica. De agradecermos mais e reclamarmos menos. De nos aproximarmos de Deus não apenas pelas palavras que pronunciamos em nossas orações, mas principalmente pela maneira como tratamos aqueles que caminham ao nosso lado.

Talvez seja essa uma das formas mais profundas de vigília: estar atento à pessoa que estamos nos tornando.

Porque ninguém se transforma de uma hora para outra. Construímos nossa vida espiritual da mesma maneira que se constrói uma casa: escolha após escolha, atitude após atitude, dia após dia. Quando os fundamentos são frágeis, qualquer tempestade pode nos derrubar. Quando construímos sobre valores sólidos — fé, honestidade, amor, trabalho, respeito, caridade e perseverança — encontramos forças para atravessar também os períodos difíceis.

Acreditar em Deus não significa esperar que Ele retire todos os obstáculos do caminho. Significa confiar que não precisamos enfrentá-los sem esperança. Significa acreditar que existe propósito também no esforço, no aprendizado, na renúncia e na reconstrução.

Por isso, vigiar é tão importante.

Vigiar os pensamentos antes que se transformem em palavras. Vigiar as palavras antes que machuquem alguém. Vigiar as escolhas antes que se transformem em hábitos. E vigiar os hábitos porque, pouco a pouco, eles ajudam a determinar quem nos tornaremos.

O bem também precisa ser cultivado. Precisa ser escolhido, praticado e repetido. E quanto mais espaço damos a ele, menos espaço deixamos para aquilo que nos afasta de Deus e de nossa própria evolução espiritual.

Cada amanhecer é, portanto, um convite.

Deus nos concede mais um dia e parece silenciosamente perguntar: o que você fará com esta nova oportunidade?

Que saibamos responder não apenas com nossas orações, mas com nossas atitudes.

Porque a fé que pronunciamos precisa encontrar a vida que vivemos.

E, quando nossas forças parecerem pequenas diante das tentações, das dificuldades e das incertezas do caminho, que permaneça em nós a confiança expressa nas palavras do apóstolo Paulo:

“Tudo posso naquele que me fortalece.”
Filipenses 4:13

Eugênio Oliveira
Blog Entre Linhas & Vivências

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