Hoje, enquanto caminhava pela praia, uma senhora me fez uma pergunta bastante simples:
O senhor sabe como está a circulação dos ônibus por aqui hoje nessa avenida?
Respondi que não sabia. Ela então completou, com toda a naturalidade:
Porque ontem tava o maior cabaré!
Na mesma hora compreendi perfeitamente o que ela queria dizer. Não havia cabaré algum. Ela estava dizendo que, por causa das alterações provocadas pelo desfile de 7 de Setembro, o trânsito e a circulação dos ônibus estavam uma verdadeira confusão. Tudo bagunçado. E aquela pequena conversa, dessas que acontecem todos os dias entre desconhecidos, me fez pensar: como nascem essas expressões que não precisam ser explicadas para quem pertence àquela cidade ou região?
A língua não nasce somente nas gramáticas, nos dicionários ou nas salas de aula. Ela também nasce na rua, na feira, na praia, no trabalho, dentro de casa e nas conversas entre amigos. Uma palavra que originalmente significa uma coisa pode ganhar outro sentido porque as pessoas começam a utilizá-la de maneira figurada. Se esse uso é repetido, compreendido e transmitido, passa a fazer parte do vocabulário de uma comunidade. É a língua viva fazendo aquilo que sempre fez: mudar junto com as pessoas que a utilizam.
O Brasil é especialmente rico nesse fenômeno. Nossa formação histórica, marcada pelo contato entre diferentes povos, migrações e culturas, ajudou a produzir uma extraordinária diversidade de falares. O Museu da Língua Portuguesa destaca justamente que nossos regionalismos, sotaques e variedades linguísticas são resultado dessa história de encontros, deslocamentos e transformações sociais.
E no Nordeste isso aparece com uma força extraordinária. Cada estado, e às vezes cada cidade, possui palavras que parecem carregar dentro delas um pouco da personalidade de seu povo. No Ceará, por exemplo, temos aperrear, quando alguém está incomodando; arengar, no sentido de brigar ou criar confusão; arrudiar, quando damos a volta; e o famoso “agora pronto!”, usado diante de alguma coisa que nos causa indignação ou espanto.
Existem ainda expressões como fuzuê, significando barulho ou confusão; amofinado, para alguém aborrecido; azuretado, para quem está confuso; macambúzio, para uma pessoa triste ou pensativa; e sustança, significando força ou vigor. São palavras registradas como exemplos dos falares populares e regionais brasileiros.
E temos aquelas que aprendi ouvindo as pessoas desde criança. Quando alguém dizia que uma pessoa estava “engurujada”, eu entendia imediatamente: estava encolhida, acabrunhada, com o semblante triste, sem aquela disposição habitual. Talvez alguém de outra região escute a mesma palavra e pergunte: “O que é isso?”. Para nós, dependendo da família, da cidade e da geração, nenhuma explicação era necessária.
É justamente aí que está uma das belezas da linguagem popular. As palavras carregam memória.
Carregam a voz dos nossos pais e avós, as conversas das calçadas, os vendedores das feiras, as brincadeiras da infância e até o jeito particular de uma região enfrentar as dificuldades com humor. Não são necessariamente palavras “erradas”. Muitas são regionalismos ou usos populares perfeitamente compreensíveis dentro do contexto em que aparecem. A própria Academia Brasileira de Letras já chamou atenção para a necessidade de distinguir linguagem popular de regionalismo e de respeitar essas formas de expressão como manifestações da cultura local.
Isso também explica por que algumas expressões desaparecem enquanto outras sobrevivem. Os mais jovens criam suas próprias gírias; a televisão espalhou expressões pelo país; depois vieram a internet e as redes sociais. Uma palavra que antes pertencia a uma pequena cidade pode atravessar o Brasil em poucos dias. Ao mesmo tempo, palavras que nossos avós utilizavam diariamente podem desaparecer quando uma geração deixa de pronunciá-las. O Museu da Língua Portuguesa registra como migrações, urbanização e meios de comunicação contribuíram para misturar e modificar os diferentes falares brasileiros.
Talvez por isso seja tão importante registrar essas expressões. Não apenas para descobrir de onde vieram, tarefa que muitas vezes é difícil, mas para preservar um pedaço da nossa identidade.
Aquela senhora que encontrei na praia provavelmente não estava pensando em linguística quando me disse que “ontem tava o maior cabaré”.
Ela simplesmente falou.
Eu simplesmente entendi.
E talvez seja exatamente assim que a língua popular se constrói: alguém inventa, adapta ou dá um novo sentido a uma palavra; outra pessoa entende; outra repete; a expressão atravessa uma família, uma rua, uma cidade, uma geração e, quando percebemos, já pertence ao povo.
A língua portuguesa que falamos não está pronta. Nós a estamos construindo todos os dias.
E, no Nordeste, fazemos isso com uma criatividade especial. Às vezes basta uma palavra para contar uma história inteira.
Porque se um nordestino olhar para uma situação completamente desorganizada e disser:
“Rapaz, isso aqui tá o maior cabaré!”
Talvez não seja necessário explicar absolutamente mais nada.
Eugênio Oliveira
Blog Entre Linhas & Vivências




