Em época de eleição, milhões de brasileiros se dirigem às urnas para escolher presidente, governadores, senadores, deputados, prefeitos e vereadores. Para alguns, aquele momento dura poucos segundos: digita-se um número, confirma-se o voto e pronto. Cumpriu-se uma obrigação. Mas será que temos consciência do tamanho da decisão que cabe dentro daqueles poucos segundos?
Quando votamos, não estamos simplesmente escolhendo um nome ou um partido. Estamos entregando a determinadas pessoas o poder de participar das decisões que poderão interferir diretamente em nossa vida, na vida de nossos filhos e no futuro das próximas gerações. São os eleitos que estarão envolvidos na definição de políticas para saúde, educação, segurança, infraestrutura, habitação, geração de empregos, proteção social, meio ambiente e tantos outros setores. No plano nacional, decisões políticas também influenciam os rumos da economia, as relações internacionais, os investimentos e a posição do Brasil diante do mundo.
Por isso, sempre me causa preocupação quando vejo alguém dizer: “Vou votar nesse porque achei engraçado”, “vou votar para protestar”, “sempre votei nesse partido” ou simplesmente “não gosto do outro”. Votar deveria exigir algo além de simpatia ou antipatia. Deveríamos conhecer minimamente a história do candidato, sua experiência, suas propostas, seu comportamento público e, principalmente, sua capacidade para exercer o cargo que pretende ocupar.
O Brasil já transformou eleições em grandes espetáculos. Celebridades, personagens folclóricos e candidatos que utilizam o humor como principal instrumento de campanha conseguiram votações expressivas. Isso não significa que a profissão, a escolaridade formal ou a origem de alguém determinem sua capacidade política. Um palhaço, um professor, um operário, um empresário ou qualquer outro cidadão pode exercer legitimamente um mandato quando cumpre os requisitos previstos em lei e recebe a confiança dos eleitores. A questão que deveríamos fazer é outra: quais critérios estamos utilizando para entregar poder a alguém?
Talvez esse seja um dos nossos maiores problemas. Muitas vezes transformamos política em futebol. Escolhemos um lado e passamos a defendê-lo como defendemos nosso time. Se o adversário fala alguma coisa sensata, rejeitamos porque veio “do outro lado”. Se o nosso candidato erra, encontramos uma justificativa. E, pouco a pouco, deixamos de discutir projetos para discutir pessoas.
Direita e esquerda fazem parte da democracia. São diferentes maneiras de compreender o Estado, a economia e a sociedade, e o confronto democrático entre ideias é saudável. O problema começa quando a convicção se transforma em cegueira e o eleitor passa a escolher não pelo que considera melhor para o país, mas simplesmente para derrotar o outro lado.
Em uma eleição presidencial, isso se torna ainda mais grave. O eleitor pode chegar ao segundo turno diante de duas alternativas que não considera ideais. Faz parte do sistema democrático. Nesse momento, porém, sua responsabilidade não desaparece. É preciso comparar propostas, trajetória, equipe, capacidade de diálogo, compromisso com as instituições e consequências possíveis de cada escolha. Presidente da República não deveria ser escolhido por birra política.
Também precisamos abandonar a ideia de que somente o voto para presidente importa. O Congresso Nacional participa da elaboração das leis, aprova o orçamento, fiscaliza o Poder Executivo e decide questões que podem modificar profundamente a vida nacional. Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais também possuem enorme importância. Às vezes passamos meses discutindo candidatos à Presidência e, diante da urna, sequer lembramos em quem votar para deputado.
Democracia não significa apenas possuir o direito de votar. Significa compreender a responsabilidade que acompanha esse direito. Houve períodos da nossa história em que brasileiros não puderam escolher livremente seus governantes. Se hoje temos esse poder, deveríamos tratá-lo com muito mais respeito.
Antes de apertarmos a tecla CONFIRMA, deveríamos fazer algumas perguntas simples: conheço essa pessoa? Sei o que ela defende? Conheço sua trajetória? Ela está preparada para o cargo? Estou votando por convicção ou apenas contra alguém? Estou escolhendo pensando no país ou obedecendo à paixão por um grupo político?
Não existe candidato perfeito. Também não existe democracia perfeita. Mas existe algo que depende de cada um de nós: a responsabilidade pela nossa escolha.
Depois das eleições, costumamos reclamar dos políticos. E temos todo o direito de cobrar, fiscalizar e criticar aqueles que foram eleitos. Mas talvez devêssemos lembrar que muitos deles chegaram ao poder porque alguém lhes entregou um voto.
E esse alguém fomos nós.
O voto dura poucos segundos. As consequências dele podem durar quatro anos, e algumas decisões tomadas pelos eleitos podem atravessar gerações. Por isso, antes de escolher um lado, precisamos escolher o Brasil.




