Mulher Rica Tem Outro Cheiro

Há frases que, quando ouvidas pela primeira vez, parecem simples demais para carregar alguma sabedoria. Algumas chegam a soar engraçadas, exageradas ou até inconvenientes. Mas o tempo passa, a vida apresenta suas armadilhas e, de repente, compreendemos que determinadas frases escondiam muito mais do que as palavras conseguiam dizer. “Mulher rica tem outro cheiro.” Era assim que Augusto costumava encerrar uma história que contava aos filhos. Eles riam, perguntavam o que aquilo significava e imaginavam que fosse apenas mais uma daquelas tiradas de um homem vivido, repetidas nos almoços de família até se transformarem em parte da memória da casa. Mas havia uma história por trás daquela frase.

Augusto era casado com Laura havia alguns anos. Não eram ricos, tampouco miseráveis. Eram apenas um casal começando a vida, como tantos outros: fazendo contas, adiando desejos, escolhendo prioridades e tentando construir, pouco a pouco, aquilo que ainda não possuíam. A casa própria era um sonho, o carro melhor poderia esperar, os móveis iam sendo comprados aos poucos e algumas vontades precisavam caber no orçamento do mês seguinte. A vida não lhes entregara tudo pronto, mas havia entre os dois algo que dinheiro nenhum poderia comprar: uma história em construção. Laura conhecia os defeitos de Augusto, e Augusto conhecia as manias de Laura. Já tinham dividido preocupações, pequenas alegrias, contas vencendo, planos realizados e outros que precisaram ser adiados. Aprendiam, como todo casal aprende com o tempo, que casamento não é viver permanentemente apaixonado, mas permanecer também nos dias comuns, quando não há flores, novidades ou grandes declarações.

Certa vez, Augusto precisou viajar a negócios. A empresa para a qual trabalhava o enviou a outra cidade para tratar de assuntos comerciais e, durante um compromisso profissional, ele conheceu Emília. Ela ocupava um cargo importante na empresa com a qual negociaria. Era bonita, elegante, segura, bem posicionada profissionalmente e dona de uma vida confortável. Tinha casa própria, carro, vestia-se com requinte e parecia pertencer a um mundo no qual algumas das preocupações que Augusto carregava simplesmente não existiam. Emília se interessou por ele. O que começou com olhares tornou-se conversa e, em determinado momento, ela resolveu ser direta: estava encantada e queria que Augusto deixasse Laura para viver com ela. Ele não precisaria preocupar-se com casa, dinheiro, carro ou despesas. Emília tinha condições de proporcionar-lhe uma vida confortável; ela cuidaria de tudo. Bastava que ele ficasse e a amasse.

A proposta era sedutora porque não oferecia apenas uma nova mulher, mas uma nova vida. De um lado estavam o trabalho, as prestações, as dificuldades, as responsabilidades e uma esposa com quem ainda havia muito a conquistar; do outro, uma mulher bonita, elegante, bem-sucedida e disposta a oferecer-lhe uma existência aparentemente mais fácil. Era uma espécie de atalho. Augusto ouviu, agradeceu e recusou. Terminou seus compromissos, arrumou a mala e voltou para casa, para Laura. Não retornou para uma mansão, nem encontrou um carro novo esperando na garagem. As contas continuavam existindo, os sonhos ainda exigiam trabalho e as dificuldades não desapareceram porque ele escolhera voltar. Mas aquela era a vida dele, e Laura fazia parte dela.

Anos depois, quando contava essa história aos filhos, Augusto costumava sorrir antes de repetir: “Meus filhos, tenham cuidado. Mulher rica tem outro cheiro.” O “cheiro”, explicava, não estava propriamente no perfume. Estava no encantamento, na roupa elegante, na aparência bem cuidada, no conforto, no ambiente diferente, na novidade, na promessa de facilidade e, sobretudo, na fantasia de que em algum outro lugar existe uma vida perfeita esperando por nós. Talvez essa seja uma das ilusões mais antigas das relações humanas, e ela não acontece apenas com homens diante de mulheres; acontece também com mulheres diante de homens. Surge sempre que alguém compara a pessoa real que está ao seu lado com alguém que acabou de conhecer.

Essa comparação quase sempre será injusta, porque conhecemos profundamente os defeitos de quem divide a vida conosco, enquanto enxergamos apenas a superfície de quem acabou de chegar. Sabemos como nossa esposa acorda num dia ruim, conhecemos as preocupações do marido, suas manias, medos, imperfeições, limitações e cansaços. Do outro, vemos o perfume, a roupa escolhida para aquela ocasião, a conversa interessante, o sorriso, o carro, a posição profissional, a segurança e a novidade. Comparamos a realidade de um com a vitrine do outro. E vitrines costumam ser bonitas.

O perigo começa quando chamamos esse encantamento de amor. Um “eu te amo” pronunciado no auge da paixão pode até ser verdadeiro naquele instante, mas isso não significa que sobreviverá à rotina. A paixão tem pressa; o amor precisa de tempo. A paixão deseja e imagina; o amor conhece e descobre. A paixão se encanta justamente com aquilo que ainda não conhece, enquanto o amor verdadeiro começa a revelar sua força depois que as imperfeições aparecem. É claro que nem todo relacionamento deve continuar a qualquer custo. Existem relações que machucam, adoecem e precisam terminar, e permanecer jamais deve significar aceitar violência, humilhação ou ausência de respeito. Mas existe uma enorme diferença entre sair de uma relação porque ela deixou de ser saudável e destruí-la simplesmente porque apareceu alguém cujo “cheiro” parece melhor.

Quantas pessoas não trocaram uma história inteira por um instante de encantamento? Quantas descobriram, tarde demais, que a pessoa idealizada também tinha defeitos, manias, dificuldades e dias ruins? O perfume passa, a roupa elegante vai para o armário, a novidade envelhece e a paixão diminui. Então começa aquilo que nenhuma aparência consegue evitar: o cotidiano. É nele que descobrimos quem realmente está ao nosso lado. Talvez Augusto tenha compreendido isso naquela viagem. Emília poderia oferecer-lhe conforto, mas não poderia oferecer o passado que ele já havia construído com Laura. Poderia prometer uma nova história, mas jamais garantir como seriam suas páginas depois que a novidade terminasse. Ele preferiu continuar escrevendo a história que já havia começado.

Por isso, quando dizia que “mulher rica tem outro cheiro”, Augusto não estava falando de riqueza nem condenando mulheres bem-sucedidas. Falava da sedução das aparências e dos atalhos que surgem justamente quando nossa própria estrada parece difícil. E sua advertência serviria igualmente para homens e mulheres: cuidado para não confundir o perfume da novidade com o cheiro do amor. Paixão pode nascer num olhar, desejo pode surgir numa conversa e encantamento pode acontecer durante uma viagem, mas o amor verdadeiro raramente chega pronto. Ele é construído nas contas pagas juntos, nos sonhos adiados, nas conquistas celebradas, nas dificuldades enfrentadas, nos defeitos conhecidos, nos perdões concedidos, nas manhãs comuns, nos silêncios compartilhados e na decisão, repetida muitas vezes ao longo dos anos, de continuar escolhendo aquela pessoa quando a vida já não tem nenhuma novidade para oferecer.

No fim, talvez seja essa a verdadeira lição escondida naquela frase aparentemente divertida: há perfumes que encantam por alguns minutos, mas existem histórias cujo cheiro permanece por uma vida inteira.

Eugênio Oliveira

Blog Entre Linhas & Vivências

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