Quando a Fé se Torna Instrumento da Política

Desde que comecei a me entender como gente, como se costuma dizer, ainda entre os 14 e os 16 anos, acompanhava meu pai às missas nas igrejas de Fortaleza. Meu pai havia sido seminarista e quase se tornou padre. Por isso, conhecia muitos sacerdotes, alguns deles seus antigos companheiros de seminário, com quem mantinha uma relação de amizade e respeito. Para mim, aquelas idas à igreja não eram apenas momentos de participação religiosa. Eram também oportunidades de observar meu pai, ouvir suas conversas e começar a formar minhas próprias opiniões sobre a fé, a sociedade e a maneira como as pessoas compreendem o papel da religião.

Uma lembrança permanece particularmente viva. Havia um padre, amigo de meu pai, que frequentemente abordava a reforma agrária durante o sermão, defendendo o tema com veemência. Meu pai não concordava com aquela abordagem. Ao final da missa, dirigia-se à sacristia para conversar com o sacerdote e contestar a presença daquele discurso político na celebração religiosa. Eu ficava ali, ao lado dele, ouvindo o diálogo entre dois homens que compartilhavam a fé católica, mas tinham entendimentos diferentes sobre o que deveria ser dito do altar. Não me recordo de meu pai negar a importância dos problemas sociais ou de discutir, naquela ocasião, os detalhes da reforma agrária. O que me marcou foi sua convicção de que a igreja não deveria se transformar em espaço de defesa de uma posição política.

Com o passar dos anos, aquelas conversas ganharam um significado maior para mim. Fui percebendo que a religião e a política, embora tratem de dimensões diferentes da vida humana, frequentemente se encontram. A fé influencia valores, desperta preocupações com o sofrimento alheio e pode levar alguém a participar dos debates da sociedade. Não vejo contradição em um religioso falar sobre fome, pobreza, injustiça, dignidade humana ou solidariedade. Essas questões dizem respeito à vida das pessoas e também estão presentes nos ensinamentos cristãos. O ponto que me inquieta é outro: quando a autoridade espiritual de quem fala passa a ser utilizada para conduzir os fiéis à adesão a um projeto político, a um partido, a um candidato ou a uma corrente ideológica.

Existe uma diferença importante entre apresentar um ensinamento religioso e transformar esse ensinamento em argumento para uma escolha política específica. Pessoas que compartilham a mesma fé podem concordar sobre a necessidade de combater a pobreza e, ainda assim, discordar sobre quais medidas públicas devem ser adotadas. Podem defender a dignidade humana e ter interpretações diferentes sobre a atuação do Estado. Essa diversidade não significa, por si só, que uma delas tenha menos fé do que a outra. A consciência de cada pessoa precisa ter espaço para examinar os fatos, ouvir argumentos e chegar às próprias conclusões.

Quando uma liderança religiosa apresenta sua preferência política como se fosse a única expressão legítima da vontade de Deus, essa liberdade de consciência fica ameaçada. O fiel pode sentir que discordar daquela posição equivale a contrariar sua religião, mesmo quando a questão envolve decisões humanas sujeitas a debate, revisão e consequências imprevistas. Também ocorre o movimento inverso: agentes políticos podem recorrer a símbolos, cerimônias e discursos religiosos para buscar apoio, procurando transferir para si a confiança que as pessoas depositam em sua fé. Em ambos os casos, surge o risco de a religião deixar de ser um caminho de reflexão espiritual para se tornar instrumento de interesses que não são necessariamente compartilhados por todos os seus seguidores.

Minha preocupação não é com a existência de religiosos que tenham opiniões políticas. Padres, pastores e integrantes de qualquer tradição religiosa são cidadãos e, como todos nós, têm o direito de participar da vida pública. Também não penso que a igreja deva permanecer indiferente ao sofrimento humano. O que considero necessário é distinguir a defesa de princípios éticos da tentativa de determinar como cada fiel deve pensar ou agir politicamente. Um sermão pode convidar à solidariedade, à honestidade e ao respeito ao próximo sem transformar a comunidade religiosa em um grupo obrigado a concordar sobre todas as soluções para os problemas do país.

Aquela experiência da adolescência teve consequências duradouras na minha vida. Hoje, não frequento a igreja como fazia ao lado de meu pai, e uma das razões é justamente o desconforto que sinto quando percebo posicionamentos políticos sendo apresentados durante celebrações religiosas. Essa é uma escolha pessoal, nascida das minhas vivências, e não uma condenação a quem continua participando de sua comunidade de fé. Minha relação com Deus não desapareceu com meu afastamento da frequência às missas. Continuo acreditando na importância da oração, da misericórdia, do amor ao próximo e da responsabilidade que cada um de nós tem por suas atitudes.

Às vezes me pergunto o que meu pai diria se pudesse acompanhar as discussões de hoje. Lembro-me dele saindo da missa e procurando o amigo padre na sacristia. Não fazia daquela discordância um rompimento pessoal: conversava, contestava e seguia respeitando o homem com quem havia compartilhado parte de sua juventude. Talvez a lembrança mais valiosa que tenha ficado para mim seja justamente essa: é possível discordar profundamente de uma posição sem transformar quem pensa diferente em inimigo.

A religião pode oferecer valores para orientar a vida, enquanto a política exige escolhas coletivas sobre caminhos, prioridades e responsabilidades. Há pontos de encontro entre elas, mas nenhuma liderança deveria tomar para si a consciência de quem a escuta. A fé pode inspirar perguntas sobre o mundo em que vivemos; as respostas políticas, porém, precisam permanecer abertas ao exame e à decisão de cada cidadão.

Opinião do autor — Eugênio Oliveira

Minha convicção, formada ainda na adolescência ao acompanhar meu pai às missas, é que a fé não deve ser usada para impor escolhas políticas. Respeito o direito de cada sacerdote, pastor ou líder religioso de ter suas próprias opiniões, assim como respeito o direito de cada fiel de concordar ou discordar delas. O que desejo encontrar em uma celebração religiosa é um espaço de oração, acolhimento e reflexão sobre os ensinamentos de Deus, sem que minha participação seja confundida com apoio a uma posição partidária ou ideológica.

Carrego comigo a lembrança de meu pai conversando com aquele padre na sacristia. Foi ouvindo os dois que comecei a compreender que a fé compartilhada não exige pensamento político idêntico. Para mim, a religião deve ajudar a formar consciências, não substituir a consciência de ninguém.

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