A Inveja Não É do que se Tem, mas do que se É

Durante muito tempo, associei a inveja àquilo que uma pessoa possui. A casa, o carro, o dinheiro, a posição profissional, uma viagem, uma conquista. Parecia natural imaginar que alguém pudesse olhar para os bens do outro e desejar possuí-los também. Com o passar dos anos, porém, comecei a perceber que existe uma forma de inveja muito mais profunda e difícil de identificar. Às vezes, a inveja não nasce daquilo que você tem. Nasce daquilo que você é.

Uma casa pode ser comprada. Um automóvel pode ser trocado. Dinheiro pode ser conquistado ou perdido. Mas existem coisas que não se encontram numa prateleira: o carisma, a capacidade de fazer amigos, a inteligência, a coragem, a serenidade, a maneira de tratar as pessoas, a facilidade de se comunicar, o reconhecimento conquistado ao longo da vida ou simplesmente aquela presença que faz alguém ser querido onde chega. Talvez seja justamente por isso que essas características possam despertar sentimentos tão contraditórios.

A inveja é um sentimento humano antigo. Na tradição filosófica cristã, Tomás de Aquino a descreve essencialmente como uma tristeza diante do bem do outro. Lírio Católico Essa definição sempre me chamou a atenção porque desloca a questão do objeto para a pessoa. O problema não está necessariamente em desejar alguma coisa que alguém possui. Podemos olhar para uma conquista alheia e pensar: “Gostaria de conseguir isso também.” Isso pode até servir de inspiração. A inveja começa a revelar sua face mais negativa quando a felicidade, o talento ou o sucesso do outro passam a provocar incômodo simplesmente porque pertencem ao outro.

É aí que surge uma diferença que considero fundamental entre admiração e inveja. A admiração olha para alguém e pensa: “Que bom que ele conseguiu. Também quero crescer.” A inveja pode seguir por outro caminho: “Por que ele conseguiu? Por que gostam dele? Por que reconhecem o trabalho dele?” Em situações mais destrutivas, a pessoa já não deseja apenas alcançar aquilo que o outro alcançou. Passa a desejar que o outro deixe de possuir aquilo que a incomoda.

E quando aquilo que desperta inveja não é um bem material, a situação se torna ainda mais complexa. Como tirar de alguém sua maneira de ser? Como possuir o carisma do outro? Como tomar para si uma história construída durante décadas? Como copiar uma personalidade? Não se pode. Talvez por isso, algumas vezes, surja a tentativa de diminuir aquilo que não se consegue possuir.

Uma conquista passa a ser chamada de sorte. O reconhecimento vira favorecimento. O talento é tratado como exagero. Uma qualidade é transformada em defeito. Aos poucos, cria-se uma narrativa capaz de reduzir o outro para que quem sente inveja não precise enfrentar suas próprias insatisfações. Nem toda crítica nasce da inveja, evidentemente, e seria injusto interpretar qualquer discordância dessa maneira. Mas existem situações em que o incômodo parece estar menos naquilo que alguém fez e mais no fato de aquela pessoa ser reconhecida pelo que faz.

As redes sociais talvez tenham ampliado esse fenômeno. Nunca tivemos tanto acesso à vida dos outros. Todos os dias vemos viagens, famílias, carreiras, comemorações, corpos, casas, negócios e conquistas. O problema é que comparamos os bastidores da nossa existência com a vitrine cuidadosamente selecionada da vida alheia. Dessa comparação podem nascer sentimentos de insuficiência. A vida do outro parece mais interessante, sua família mais feliz, seu trabalho mais valorizado e seu caminho aparentemente mais fácil.

Mas há algo que frequentemente esquecemos: não conhecemos integralmente a história de ninguém. Vemos a conquista, mas não necessariamente os anos de trabalho. Vemos o sorriso, mas desconhecemos as dores. Vemos o resultado, mas não os fracassos anteriores. Julgar a vida inteira de uma pessoa por aquilo que aparece diante dos nossos olhos é enxergar apenas uma pequena parte da história.

Também aprendi que sentir algum desconforto diante da conquista alheia não precisa necessariamente nos transformar em pessoas ruins. Sentimentos surgem. O que fazemos com eles é outra questão. Podemos permitir que a comparação se transforme em ressentimento ou utilizá-la como oportunidade de autoconhecimento. Em vez de perguntar “por que ele tem?”, talvez seja mais construtivo perguntar: “o que essa pessoa despertou em mim e o que isso revela sobre aquilo que desejo para minha própria vida?”

Essa mudança aparentemente simples pode transformar inveja em inspiração. Se admiro a capacidade de alguém se comunicar, posso desenvolver minha comunicação. Se admiro sua disciplina, posso trabalhar a minha. Se gostaria de possuir determinado conhecimento, posso estudar. Existem características que talvez jamais tenhamos exatamente como outra pessoa — porque somos diferentes —, mas sempre podemos desenvolver aquilo que existe de melhor em nós.

Depois de tantos anos observando pessoas, relações e comportamentos, cheguei à conclusão de que talvez a melhor resposta à inveja seja justamente não viver tentando ser o outro. Cada pessoa carrega uma combinação de experiências, qualidades, limitações, acertos e erros que não pode ser reproduzida integralmente.

A paz começa quando conseguimos reconhecer o valor do outro sem considerar esse valor uma ameaça ao nosso.

Porque o brilho de alguém não precisa diminuir o nosso. O sucesso de outra pessoa não retira nossas possibilidades. A inteligência do outro não reduz a nossa capacidade de aprender. O carinho que alguém recebe não significa que existe menos afeto disponível para nós.

Talvez precisemos substituir comparação por inspiração e competição permanente por consciência de nossa própria identidade.

No fim das contas, há pessoas que não invejam aquilo que você possui. Invejam sua maneira de viver, sua alegria, sua história, sua capacidade de recomeçar, as pessoas que gostam de você e aquilo que você conseguiu se tornar.

E essas são justamente as coisas que dinheiro nenhum consegue comprar.

Opinião do autor — Eugênio Oliveira

Ao longo da vida, fui percebendo que a inveja nem sempre está relacionada ao patrimônio ou às conquistas materiais. Muitas vezes, aquilo que incomoda alguém é exatamente o que não pode ser comprado: a maneira de ser do outro.

Por isso procuro enxergar a conquista de outra pessoa como demonstração de que também podemos evoluir. Prefiro admirar a invejar. A admiração nos impulsiona; a inveja nos aprisiona na vida alheia.

Não precisamos apagar a luz de ninguém para fazer a nossa brilhar. Talvez a verdadeira vitória seja chegar a um ponto da vida em que possamos olhar para aquilo que somos e sentir paz.

Compartilhe isso:

Relacionado:

COLUNISTAS:

Parceiros:

Siga o Blog nas Redes Sociais:

Aqui você encontra o que procura: