Há uma pergunta que me inquieta cada vez mais quando observo determinados comportamentos religiosos e sociais: como pessoas que acreditam em Deus, defendem a família, valorizam a honestidade e procuram fazer o bem podem ser convencidas a aceitar atitudes que contrariam esses mesmos valores? Como alguém passa a justificar a injustiça em nome da justiça, a crueldade em nome da bondade e o sofrimento de inocentes como se fosse uma exigência divina? Em que momento a fé, que deveria iluminar a consciência, pode ser transformada num instrumento para silenciá-la?
Não escrevo estas palavras para atacar a religião, muito menos para condenar os milhões de evangélicos, católicos e seguidores de outras crenças que encontram na espiritualidade um caminho de amor, solidariedade e esperança. Escrevo porque acredito que nenhuma instituição, por mais respeitável que seja, deve estar acima do direito de questionar. E porque me preocupa profundamente quando o nome de Deus é utilizado para convencer pessoas de que obedecer é mais importante do que pensar, de que sofrer calado é uma virtude e de que contestar uma autoridade religiosa significa contestar o próprio Criador.
Existe um fenômeno estudado pela psicologia e pelas ciências sociais conhecido como abuso espiritual ou religioso. Ele ocorre quando crenças, ensinamentos sagrados ou posições de autoridade são utilizados para controlar comportamentos, impor obediência, provocar culpa ou limitar a liberdade de decisão de alguém. Pesquisas descrevem situações em que a manipulação religiosa se combina com medo, vergonha, isolamento e exigências de submissão. Não é uma característica exclusiva de determinada religião, mas uma possibilidade de abuso onde existe concentração de poder sem espaço para questionamentos.
O mecanismo pode ser mais simples e, ao mesmo tempo, mais perigoso do que imaginamos. Primeiro, conquista-se a confiança. Depois, apresenta-se uma interpretação da realidade dividida entre os que pertencem ao grupo e aqueles que supostamente representam uma ameaça. Em seguida, a autoridade passa a ser tratada como portadora de uma verdade que não pode ser contestada. Quando isso acontece, discordar deixa de ser uma manifestação legítima de consciência e passa a ser apresentado como desobediência, falta de fé ou até pecado.
É nesse ponto que a bondade pode ser confundida com submissão. Pessoas generosas, acostumadas a confiar e a ajudar, podem sentir que precisam suportar qualquer sacrifício para demonstrar fidelidade aos seus princípios. Algumas passam a aceitar humilhações, renunciar à própria capacidade de julgamento ou defender comportamentos que, em outras circunstâncias, considerariam moralmente inaceitáveis. Não porque tenham deixado de distinguir o bem do mal, mas porque foram levadas a acreditar que determinada autoridade possui o direito de fazer essa distinção por elas.
E aqui está a contradição que mais me preocupa: quando alguém consegue convencer uma pessoa boa de que praticar ou tolerar uma injustiça é necessário para alcançar um bem maior, a própria noção de bondade começa a ser distorcida.
Lembro-me de uma passagem bíblica frequentemente associada à ideia de que o justo sofre pelos pecadores. Em 1 Pedro 3:18, encontramos a referência a Cristo, o justo, que sofreu pelos injustos. Trata-se de um ensinamento central da fé cristã sobre o sacrifício de Jesus. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre reconhecer o sacrifício de Cristo e transformar esse acontecimento numa obrigação para que pessoas inocentes aceitem abusos, exploração ou sofrimento imposto por outras. Uma coisa é o amor que se oferece livremente. Outra, completamente diferente, é o sacrifício exigido por quem pretende se beneficiar dele.
O próprio Novo Testamento oferece uma orientação que considero essencial para essa reflexão. Em Romanos 12:21, o apóstolo Paulo ensina que não devemos nos deixar vencer pelo mal, mas vencê-lo por meio do bem. Isso está muito distante de autorizar o mal em nome de uma suposta finalidade superior. Também não significa que pessoas justas devam permanecer indefesas diante da injustiça. Significa que a resposta moral ao mal não precisa reproduzir a sua violência.
Talvez a grande questão seja compreender quem define o que é o bem e a quem interessa determinada interpretação da vontade de Deus. Quando um líder pede humildade, ele também é humilde? Quando exige sacrifícios, também se sacrifica? Quando prega honestidade, aceita prestar contas? Quando ensina o perdão, reconhece seus próprios erros? Quando fala em liberdade espiritual, permite que seus seguidores pensem e discordem? Essas perguntas deveriam fazer parte de qualquer experiência religiosa saudável.
Não considero justo afirmar que esse fenômeno esteja crescendo em todo o mundo sem dados comparáveis que comprovem essa tendência. O que podemos afirmar é que o abuso espiritual vem sendo estudado em diferentes contextos religiosos e países, inclusive em pesquisas recentes sobre controle coercitivo e danos psicológicos associados ao uso indevido da autoridade religiosa.
A preocupação, portanto, não é imaginária. Mas também não autoriza transformar todos os religiosos em manipuladores ou todos os fiéis em vítimas incapazes de pensar.
Há igrejas que acolhem os pobres, defendem direitos, cuidam de pessoas abandonadas e ajudam famílias a reconstruir suas vidas. Há líderes religiosos que dedicam a existência ao serviço dos outros, sem procurar privilégios ou poder. Essas experiências precisam ser reconhecidas. Justamente por isso, é tão importante distinguir a fé autêntica das práticas que a instrumentalizam. Criticar o abuso da religião não é atacar a fé; pode ser, inclusive, uma maneira de defendê-la.
A imagem que me vem à cabeça é a de pessoas caminhando como cordeiros em direção ao abate, sem perceber que sua confiança está sendo utilizada contra elas. É uma imagem forte, talvez incômoda, mas que traduz meu receio diante de situações em que o indivíduo abandona a própria consciência para seguir cegamente uma liderança. Não porque acredite que as pessoas religiosas sejam ingênuas. Ao contrário: acredito que pessoas inteligentes, honestas e bem-intencionadas também podem ser influenciadas quando sentimentos profundos, como o medo, a esperança, o pertencimento e a necessidade de encontrar sentido para a vida, são utilizados para restringir sua autonomia.
A fé deveria ajudar o ser humano a crescer, não a diminuir. Deveria fortalecer sua responsabilidade diante da vida, não transformá-lo em alguém incapaz de questionar. Deveria ensinar o amor ao próximo sem exigir que uma pessoa aceite ser destruída para beneficiar outra. Afinal, se a dignidade humana é um valor espiritual, ela não pode ser descartada quando se torna inconveniente para aqueles que exercem o poder.
Ao longo da minha vida, aprendi que devemos ouvir as pessoas, respeitar suas crenças e procurar compreender aquilo que pensam. Mas aprendi também que nenhuma palavra, venha de onde vier, deve atravessar nossa consciência sem passar pelo filtro da razão, dos valores e da responsabilidade individual. A autoridade de alguém não transforma automaticamente suas palavras em verdade. E o fato de uma mensagem ser pronunciada num templo não a torna imune ao questionamento.
Talvez a pergunta que devêssemos fazer não seja apenas por que algumas pessoas se deixam manipular, mas por que determinados líderes precisam que seus seguidores deixem de pensar por si mesmos. Uma verdade que se sustenta não deveria temer perguntas. Uma fé que nasce do amor não deveria depender do medo. E uma liderança comprometida com o bem não deveria precisar da submissão incondicional daqueles que confiam nela.
Opinião do autor — Eugênio Oliveira
Acredito em Deus e nos ensinamentos de amor, justiça, misericórdia e respeito ao próximo. Mas não consigo aceitar que esses valores sejam utilizados para justificar a exploração dos mais fracos ou o silêncio dos que sofrem. Não acredito que alguém precise renunciar à própria consciência para demonstrar sua fé, muito menos que a bondade de uma pessoa possa servir de autorização para que outros pratiquem o mal.
Para mim, existe uma diferença imensa entre o sacrifício que nasce do amor e aquele que é imposto pela manipulação. O primeiro pode ser uma expressão de generosidade. O segundo pode se transformar numa forma de dominação.
Não pretendo julgar a fé de ninguém. Quero apenas defender o direito de cada pessoa pensar, perguntar, discordar e reconhecer quando algo contraria os princípios que ela própria considera sagrados.
Porque, se uma religião ensina que devemos amar o próximo, não pode exigir que deixemos de amar e respeitar a nós mesmos. E se Deus nos deu consciência, razão e liberdade, por que haveríamos de acreditar que agradá-lo significa abrir mão de todas elas?
Essa é a reflexão que deixo aos leitores.




