A Dor da Despedida e a Certeza de uma Nova Vida

Ontem, 12 de setembro de 2026, minha mãe, Albanita Lima de Oliveira, partiu deste mundo exatamente no dia em que completava 95 anos. Nascida em Baturité, no Ceará, em 12 de setembro de 1931, viúva, mãe de cinco filhos, avó de 15 netos e bisavó de 16 bisnetos, ela encerrou uma longa caminhada entre nós. Digo que encerrou sua caminhada nesta vida porque minha fé não me permite enxergar aquele momento como o fim. Acredito que minha mãe partiu daqui para nascer para uma nova vida.

Às duas horas da madrugada recebi a notícia. Como ela já estava adoentada, muito frágil e os médicos haviam nos preparado para aquele desfecho, eu imaginava estar pronto. Levantei-me com uma calma que até me surpreendeu. Algumas lágrimas caíram, fui ao hospital encontrar meus irmãos e procurei ajudar no que fosse necessário. Naquele primeiro momento, parecia que a razão havia assumido o comando: minha mãe tinha vivido 95 anos, estava cansada, havia cumprido sua missão e chegara sua hora. Eu compreendia tudo isso. Mas compreender a morte é muito diferente de sentir a ausência.

Mais tarde, voltei para casa e me preparei para o velório. Foi então que a dor começou verdadeiramente a encontrar espaço dentro de mim. A cada mensagem de carinho que recebia, a cada abraço de um amigo ou parente, alguma coisa se movia por dentro. A vontade de chorar vinha, eu me continha, respirava e continuava. Percebi que não estava tão preparado quanto imaginava. E hoje compreendo que ninguém precisa estar. Quando existe amor, existe saudade; e quando a despedida chega, o coração não obedece às explicações que a razão preparou.

Durante a missa de corpo presente, minha emoção aumentou. Enquanto ouvia as palavras do padre, recordei uma reflexão que havia escrito poucos dias antes e enviado aos meus irmãos, quando nossa mãe ainda estava na UTI. Naquele texto falei justamente da minha crença de que a morte pode ser compreendida como um novo nascimento. Lembrei-me das palavras de Jesus no Evangelho de João: “Na casa de meu Pai há muitas moradas.” Essa promessa sempre teve um significado especial para mim, mas naquele momento, diante do corpo de minha mãe, ganhou outra dimensão. Não era mais apenas uma passagem bíblica que eu conhecia. Era a esperança à qual meu coração precisava se agarrar.

As lembranças começaram a se misturar. Minha mãe, meu pai, nossa infância, nossa família, o carinho e o respeito que sempre senti por ela. Vieram imagens de uma vida inteira. E, perto do final da celebração, aconteceu o momento que mais profundamente me tocou.

A palavra foi oferecida aos filhos. Meu irmão mais velho, Chico Alberto, por quem tenho grande admiração, levantou-se. Naquele instante, de alguma maneira, ele assumiu novamente o papel que nosso pai lhe confiara antes de partir: o de irmão mais velho, aquele que, nos momentos importantes, fala também em nome da família.

Ele começou lembrando a mulher de fibra que nossa mãe sempre foi. Falou de sua simplicidade, da dedicação aos filhos e ao marido e, principalmente, de sua fé inabalável. Sobre isso nunca tive qualquer dúvida. Minha mãe acreditava verdadeiramente em Deus.

Mas foi quando meu irmão começou a falar sobre o relacionamento de nossos pais que minhas forças diminuíram.

Meu pai dizia que não sabia explicar exatamente o que era o amor. Curiosamente, porém, ele o explicava todos os dias por meio de suas atitudes. Para ele, amar não estava no ciúme nem nas grandes declarações. O amor estava no cuidado cotidiano, no carinho, no respeito, na preocupação com o bem-estar do outro, no desejo de vê-lo feliz e na vontade de oferecer o melhor que estivesse ao seu alcance.

Foi assim que meu pai amou minha mãe.

Com presença.

Com respeito.

Com carinho.

Com atenção.

Meu irmão então disse diante de todos aquilo que, no fundo, eu também sempre soube:

— Mamãe, a senhora foi muito amada pelo papai.

Naquele momento, não consegui mais conter as lágrimas.

Senti minhas pernas fraquejarem. Chorei como ainda não havia chorado desde que recebera a notícia de sua partida. Porque aquela frase não falava apenas da morte de minha mãe. Falava da história dos meus pais. Falava de uma vida construída em conjunto. Falava daquele amor silencioso que não precisa ser anunciado porque pode ser percebido na maneira como duas pessoas cuidam uma da outra ao longo dos anos.

E talvez tenha sido por isso que aquelas palavras me atingiram tão profundamente. Porque também acredito que o verdadeiro amor é demonstrado muito mais pelas atitudes do que pelas palavras. Amar é querer o bem. É respeitar. É cuidar. É permanecer. É encontrar felicidade na felicidade da pessoa que escolhemos para caminhar conosco.

Ali, diante de minha mãe, compreendi ainda melhor o legado que meus pais nos deixaram.

Ela partiu no mesmo dia em que completava 95 anos. Há algo nessa coincidência que me toca profundamente: a data que durante toda a sua vida marcou sua chegada a este mundo passou também a marcar sua partida. 12 de setembro tornou-se, para nossa família, a data de dois nascimentos: o nascimento de Albanita para esta vida e, pela fé que carrego, seu nascimento para uma nova existência.

Por isso, apesar das lágrimas, não consigo olhar para aquele momento somente como uma despedida.

Minha fé me diz que minha mãe cumpriu sua missão na Terra. Uma mulher simples, esposa dedicada, mãe de cinco filhos, avó, bisavó, sustentada por uma fé que permaneceu firme durante toda a sua caminhada. Uma vida não precisa ser medida pelos grandes feitos que aparecem nos livros. Existem existências grandiosas construídas silenciosamente dentro de uma família, no cuidado com os filhos, na fidelidade aos seus valores, na presença cotidiana e no amor oferecido durante décadas.

Minha mãe teve uma dessas vidas.

A dor que sinto é humana. É a dor do filho que sabe que não encontrará mais fisicamente aquela presença que fez parte de toda a sua existência. Mas minha fé me impede de transformar essa dor em desespero. Eu chorei a despedida, mas acredito na chegada.

Acredito nas muitas moradas anunciadas por Cristo.

Acredito que a existência não terminou naquele instante.

Acredito que minha mãe foi recebida para uma nova vida.

E acredito que aqueles que ela amou e que partiram antes dela agora fazem parte dessa nova realidade que nós ainda não conseguimos enxergar.

Entre eles, gosto especialmente de pensar em meu pai.

Depois de tantos anos separados pela morte, aquele homem que talvez não soubesse definir o amor com palavras, mas soube demonstrá-lo durante toda uma vida, pode novamente estar ao lado da mulher que tanto amou.

Essa imagem me traz paz.

A despedida de minha mãe foi dolorosa, mas também foi bonita. Houve lágrimas, abraços, lembranças, oração, gratidão e muito amor. E talvez seja justamente assim que devemos nos despedir daqueles que cumpriram dignamente sua missão: permitindo que a saudade chore, mas deixando que a fé nos lembre de que a história não termina diante de um túmulo.

Hoje a ausência começa a ocupar seu lugar. A saudade certamente ganhará novas formas com o passar dos dias. Haverá momentos em que uma lembrança chegará sem avisar, uma fotografia despertará emoções, uma data fará o coração apertar. Faz parte do amor.

Mas existe algo que a morte não consegue levar.

Aquilo que recebemos de quem amamos passa a viver dentro de nós.

Minha mãe continuará na história dos seus cinco filhos, dos seus 15 netos, dos seus 16 bisnetos e de todos aqueles que foram alcançados por sua presença durante esses 95 anos. Continuará em nossas lembranças, em nossos gestos, em valores que aprendemos e até em pequenas coisas que repetiremos sem perceber de onde vieram.

Ontem chorei porque minha mãe partiu.

Hoje agradeço porque tive minha mãe durante toda a minha vida.

E sigo acreditando que, naquele mesmo 12 de setembro em que nasceu Albanita Lima de Oliveira para este mundo, ela nasceu novamente para a eternidade.

A dor da despedida permanece. Mas permanece também uma certeza muito maior dentro de mim: o amor não terminou, a vida não terminou e a nossa história também não termina aqui.

Te amo e sempre te amarei, Mãe Albanita.

Do seu filho, Eugênio Oliveira, por toda a eternidade.

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