Ainda Bem

Conheci, muitos anos atrás, um homem que acabou me ensinando uma das lições mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas que já recebi de um amigo.

Ele tinha uma expressão que usava sempre que alguma coisa ruim acontecia.

“Ainda bem.”

No início, confesso que aquilo me causava certa estranheza. Como alguém poderia encontrar um “ainda bem” justamente quando a vida lhe apresentava um problema? Para mim, algumas situações simplesmente eram ruins. Um prejuízo era um prejuízo. Uma perda era uma perda. Uma dificuldade era uma dificuldade.

Mas meu amigo parecia enxergar alguma coisa que eu ainda não conseguia perceber.

Certa vez, ele sofreu um acidente de carro. O veículo ficou bastante danificado e o prejuízo seria grande. Quando soube, manifestei minha preocupação.

Rapaz, que situação. Sinto muito pelo prejuízo.

Ele respondeu quase imediatamente:

Ainda bem que não aconteceu nada comigo nem com a motorista do outro carro.

E continuou:

Ainda bem que tenho condições de pagar o conserto. Ainda bem que a outra motorista era uma pessoa tranquila. Hoje encontramos tanta gente nervosa e agressiva no trânsito que eu até fiquei com medo da reação dela.

Achei curioso.

O carro estava danificado. Havia uma despesa que ele não esperava. O acidente realmente tinha acontecido. Meu amigo não negava nada disso.

Mas, enquanto eu olhava para aquilo que ele havia perdido, ele olhava para aquilo que havia sido preservado.

O tempo passou e nossos caminhos voltaram a se cruzar.

Dessa vez, ele estava enfrentando outro problema. A empresa à qual havia dedicado cerca de dez anos não estava mais indo bem. Depois de tentar mantê-la funcionando, havia decidido encerrá-la.

Eu sabia o quanto aquele negócio representava para ele.

Que pena. Você gostava tanto dessa empresa e trabalhou tanto para construí-la.

E lá veio novamente aquela expressão:

Ainda bem.

Olhei para ele e quase sorri, porque já começava a conhecer aquela maneira peculiar de enfrentar as dificuldades.

Ainda bem que tenho saúde e disposição para trabalhar — explicou. — Ainda bem que tenho crédito e posso começar outra coisa. Vou abrir um novo negócio, corrigir o que não funcionou no anterior e acredito que posso até melhorar minha renda.

Mais uma vez, a realidade não havia mudado.

A empresa continuaria fechando.

Dez anos de dedicação não voltariam.

Haveria perdas, incertezas e a necessidade de começar novamente.

Mas ele possuía uma extraordinária capacidade de não permitir que aquilo que terminava levasse consigo tudo aquilo que ainda poderia começar.

O “ainda bem” daquele homem não apagava o problema.

Ele apenas impedia que o problema ocupasse todo o horizonte.

Quando o “ainda bem” encontrou a dor

Passou-se mais algum tempo até que nos encontrássemos novamente.

Dessa vez, porém, não havia carro batido, dinheiro perdido ou empresa fechando.

Havia uma notícia muito mais difícil.

Eugênio, perdi um filho.

Por alguns segundos, qualquer palavra parece pequena diante de uma frase como essa.

Dei meus sentimentos e disse aquilo que provavelmente todos nós diríamos:

Meus pêsames. Deve ser uma dor muito grande perder um filho.

Ele concordou.

Não tentou diminuir a perda. Não disse que estava tudo bem. Não fingiu que não sofria.

Disse que a dor era realmente muito forte.

E então, depois de falar sobre o sofrimento que ele e a esposa estavam atravessando, pronunciou novamente as duas palavras que eu já conhecia:

Ainda bem que eu e minha esposa temos muita fé em Deus.

Dessa vez, seu “ainda bem” tinha outro peso.

Ele me explicou que a fé os estava ajudando a atravessar aquele momento. Como cristãos, acreditavam que a vida possuía um sentido que nem sempre conseguimos compreender e encontravam consolo na confiança de que o filho havia cumprido sua missão nesta existência.

Eles choraram.

Sofreram.

Sentiram saudade.

Mas decidiram continuar vivendo.

Não porque a perda tivesse se tornado pequena, mas porque a fé havia se tornado grande o suficiente para ajudá-los a carregá-la.

Foi então que comecei a compreender verdadeiramente aquele homem.

O lado para o qual escolhemos olhar

Muito tempo depois, quando nos encontramos novamente, resolvi finalmente fazer a pergunta que carregava comigo havia anos:

Por que, sempre que alguma coisa ruim acontece, você encontra um “ainda bem”?

Ele respondeu de maneira simples:

Eugênio, quase tudo na vida pode ser olhado por mais de um lado. O problema aconteceu e eu não posso mudar aquilo que já aconteceu. Mas posso escolher para onde vou olhar depois dele. Eu procuro olhar para aquilo que ainda existe, para aquilo que posso fazer e para o lado positivo que restou.

Naquele momento compreendi.

Meu amigo não era alguém protegido dos problemas.

Pelo contrário.

Ele teve prejuízos. Viu um negócio construído durante anos chegar ao fim. Experimentou uma das dores mais difíceis que um pai pode enfrentar.

Seu segredo nunca esteve em possuir uma vida sem sofrimento.

Estava na maneira como escolhia atravessá-lo.

Há uma diferença enorme entre pensar positivamente e negar a realidade.

Dizer “ainda bem” não significa dizer que uma tragédia foi boa. Não significa ignorar a tristeza, esconder lágrimas ou acreditar que tudo precisa ter uma explicação imediata.

Há momentos em que precisamos simplesmente sofrer.

Há perdas para as quais talvez nunca encontremos uma resposta satisfatória.

O que aprendi com aquele amigo foi outra coisa.

O “ainda bem” procura aquilo que a dificuldade não conseguiu levar.

Perdi dinheiro.

Ainda bem que preservei minha vida.

Meu projeto terminou.

Ainda bem que posso recomeçar.

Uma porta se fechou.

Ainda bem que continuo tendo condições de procurar outra.

Estou atravessando uma dificuldade.

Ainda bem que existem pessoas ao meu lado.

Não posso mudar o que aconteceu.

Ainda bem que posso decidir o que farei daqui para frente.

Talvez grande parte de nossa infelicidade não venha apenas dos problemas que enfrentamos, mas do tempo que permanecemos olhando exclusivamente para aquilo que perdemos.

Meu amigo me ensinou a perguntar:

O que ainda ficou?

Essa pergunta pode mudar muita coisa.

Os amigos que tornam a caminhada mais leve

Com o passar dos anos, percebi também que aquela história me deixou outra lição.

Precisamos escolher bem as pessoas que caminham conosco.

Existem pessoas que tornam qualquer problema maior. Alimentam ressentimentos, espalham pessimismo e conseguem encontrar uma dificuldade até mesmo nos dias bons.

Mas existem aquelas que fazem o contrário.

Não porque sejam ingênuas ou porque vivam numa realidade diferente da nossa, mas porque carregam uma maneira mais leve e esperançosa de olhar para a existência.

Bons amigos também nos educam.

Às vezes sem dar conselho algum.

Nós simplesmente observamos a maneira como enfrentam a vida e levamos alguma coisa deles conosco.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Aquele homem provavelmente nunca imaginou que sua pequena expressão ficaria guardada durante tantos anos na memória de um amigo.

Mas ficou.

E hoje, diante de algumas dificuldades, percebo que também comecei a procurar o meu próprio “ainda bem”.

Nem sempre consigo encontrá-lo imediatamente.

Algumas situações precisam primeiro ser assimiladas. Algumas dores exigem tempo. Somos humanos.

Mas, depois que a tempestade começa a passar, tento olhar novamente.

E quase sempre alguma coisa permaneceu.

Uma pessoa.

Uma possibilidade.

Uma experiência.

Uma lição.

Uma oportunidade de recomeçar.

A própria vida.

Opinião do autor

Aprendi com esse amigo que o “ainda bem” não muda aquilo que aconteceu, mas pode mudar a maneira como aquilo que aconteceu continuará vivendo dentro de nós. Não significa negar a dor, o prejuízo ou a perda. Significa não entregar ao problema o direito de apagar tudo aquilo que ainda temos. Também aprendi que precisamos ter boas pessoas ao nosso lado. Amigos do bem deixam ensinamentos que carregamos pela vida inteira e tornam nossa caminhada mais leve. Aquele amigo me ensinou a procurar o lado que ainda contém esperança.

Hoje, muitos anos depois, finalmente posso responder àquela lição da maneira que ele certamente responderia:

Ainda bem que o conheci.

Ainda bem que perguntei.

Ainda bem que compreendi.

E, principalmente,

ainda bem que guardei essa lição para a minha vida.

Eugênio Oliveira
Blog Entre Linhas & Vivências

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