Bordões do Ceará e do Brasil que o Povo Não Esquece

Existem frases que ouvimos uma vez e esquecemos. Outras, de tanto serem repetidas, passam a identificar uma pessoa. Basta pronunciá-las para que imediatamente nos lembremos de uma voz, de um programa, de uma época ou até de uma situação vivida muitos anos atrás. São os bordões, pequenas construções da linguagem que, quando encontram personalidade, ritmo e oportunidade, podem se transformar numa verdadeira marca pessoal.

O Ceará tem uma história riquíssima nesse campo, especialmente no rádio e na comunicação esportiva. Lembro, por exemplo, de “A Dragão dá o bis no som maior do sucesso”, chamada que ficou associada à Rádio Dragão do Mar. Também permanece na memória de muita gente o bem-humorado “Acabou o milho, acabou a pipoca”, usado para anunciar que alguma coisa chegava ao fim. E havia ainda aquele jogo de palavras que atravessou gerações: “Relógio que atrasa não adianta, é Roskopf.” Frases simples, mas que possuíam aquilo que todo bom bordão precisa ter: sonoridade, humor e facilidade para serem repetidas.

E você me fez lembrar de outro personagem muito interessante dessa história: Zé Limeira, apaixonado torcedor do Ferroviário e presença constante nos programas esportivos cearenses nas décadas de 1960 e 1970. Tom Barros recordou no Diário do Nordeste que Zé Limeira promovia o Ferrão pelas emissoras e repetia uma frase curiosíssima: “Do lado que eu aliso é um ralo; do outro, esporão de galo.” Há registro também de uma versão mais completa que começava com “Ou vai ou racha…”. O próprio Tom Barros o descreveu como uma espécie de “marketeiro natural” numa época em que a palavra marketing praticamente nem fazia parte daquele universo.

Outra figura que merece lugar nessas lembranças é Sílvio Carlos Vieira Lima, amigo do meu irmão Chico Alberto e conhecido no meio esportivo cearense como “o Papa do Amadorismo”. O apelido foi dado pelo comentarista Paulino Rocha, em referência à dedicação de Sílvio à divulgação das modalidades amadoras, e acabou acompanhando sua trajetória no jornalismo esportivo.

É interessante perceber que nem sempre uma expressão precisa ser uma frase inteira para marcar alguém. Às vezes, um apelido dito ao microfone se torna tão forte que passa a identificar uma pessoa por toda a vida. No caso de Sílvio Carlos, bastava ouvir “o Papa do Amadorismo” para saber de quem se estava falando.

É justamente aí que percebemos que o bordão não pertence somente aos grandes apresentadores. Pode nascer com um radialista, um narrador esportivo, um torcedor, um humorista ou simplesmente alguém que tenha uma maneira tão particular de dizer determinada coisa que aquela frase passe a representá-lo.

Um exemplo extraordinário no rádio cearense foi Paulo Limaverde. O próprio nome de um de seus programas tornou-se uma demonstração de criatividade sonora: “Sucessão de Sucessos que se Sucedem Sucessivamente sem Cessar! Sá, Sé, Si, Só, Sucesso!”. A brincadeira com a letra “S” funcionou tão bem que, segundo relato do próprio Limaverde, chegou um momento em que ele fazia apenas o som prolongado do “S” ao microfone e o público já sabia do que se tratava. O bordão havia se transformado em marca.

Décadas depois, Alan Neto mostrou que essa tradição continuava viva. No Trem Bala, expressões como “Olha o deeeedo do Trem Bala!”, “Não para nem a pau e nem a bala”, “Isso é uma pândega” e o anúncio de uma “bomba de mil megatons” ajudaram a construir uma linguagem própria. Não eram apenas frases soltas: faziam parte do personagem comunicacional de Alan. Quem escutava “Olha o dedo!” dificilmente precisava perguntar quem estava falando.

E talvez seja essa a melhor definição de um grande bordão: uma frase capaz de substituir o próprio nome de quem a pronuncia.

Mas esse fenômeno está longe de pertencer apenas ao passado. As redes sociais criaram uma nova geração de bordões e mostraram que o mecanismo continua exatamente o mesmo. Um exemplo interessante é o paraibano Gabriel Vicente da Silva, o Biel de Jampa, que ficou conhecido na internet pelo divertido “Malhou, comeu”. A frase nasceu de uma brincadeira sobre fazer exercícios para poder comer e viralizou. O sucesso levou Biel da internet para programas nacionais de televisão e transformou aquelas duas palavras em sua marca.

Isso demonstra algo importante: o rádio mudou, a televisão mudou, chegaram Instagram, YouTube, TikTok e tantas outras plataformas, mas a força do bordão permaneceu. Mudou apenas o lugar onde ele nasce e a velocidade com que se espalha.

No restante do Brasil encontramos exemplos inesquecíveis. Chacrinha transformou frases como “Terezinha, uh uh!” e “Roda, roda, roda e avisa!” em parte do espetáculo que comandava. Não era somente o que ele dizia: havia a buzina, os figurinos, o gesto, a entonação e toda uma personagem construída ao redor daquelas expressões.

Silvio Santos talvez seja outro dos maiores exemplos brasileiros dessa capacidade. “Quem quer dinheiro?”, “Está certo disso?” e “É namoro ou amizade?” atravessaram décadas. Algumas dessas frases acabaram entrando na linguagem cotidiana de pessoas que muitas vezes nem estavam falando sobre televisão.

No esporte, Galvão Bueno fez o mesmo com “Bem, amigos!”, “Haja coração!” e “Sai que é sua, Taffarel!”. O próprio Galvão contou que algumas dessas expressões nasceram espontaneamente durante transmissões e acabaram permanecendo. No jornalismo, Boris Casoy ficou associado ao indignado “Isto é uma vergonha!”, enquanto Marcelo Rezende popularizou “Corta pra mim!” e Datena, “Me ajuda aí, ô!”.

O mais interessante é perceber que quase nenhum grande bordão parece ter nascido de uma reunião de marketing. Ele surge naturalmente, muitas vezes por acaso. A pessoa repete, o público gosta, começa a imitar e, quando todos percebem, aquelas poucas palavras adquiriram dono.

Hoje chamamos isso de marca pessoal. Influenciadores procuram criar identidade, empresas estudam posicionamento e profissionais pensam cuidadosamente na forma como querem ser reconhecidos. Os antigos radialistas já faziam tudo isso intuitivamente. Eles sabiam que uma voz diferente, uma maneira particular de falar e uma expressão repetida no momento certo podiam criar uma ligação afetiva com o público.

Mas existe uma condição fundamental: o bordão precisa parecer verdadeiro. Quando é excessivamente fabricado, dificilmente sobrevive. Os melhores nascem da personalidade de quem fala. “Olha o dedo!” tinha a cara de Alan Neto. A sucessão interminável de palavras começadas com “S” tinha o jeito de Paulo Limaverde. “Malhou, comeu” combina com o humor espontâneo de Biel de Jampa. “Quem quer dinheiro?” dificilmente seria imaginado sem a voz e o sorriso de Silvio Santos.

Talvez por isso algumas dessas frases sobrevivam até mesmo aos seus criadores.

Quando alguém repete hoje um antigo bordão do rádio cearense, não está pronunciando apenas algumas palavras. Está trazendo de volta uma voz, um programa, um domingo, um jogo do Ferroviário, do Ceará ou do Fortaleza, uma música que tocava no rádio, uma casa onde aquele aparelho permanecia ligado e até pessoas que já não estão mais conosco.

Esse talvez seja o maior poder de um bordão: transformar poucas palavras em memória.

As plataformas passam, os programas terminam, os microfones se desligam e novas gerações de comunicadores aparecem. Mas algumas frases continuam circulando, repetidas por pessoas que muitas vezes nem sabem exatamente quando ou onde elas nasceram.

E quando isso acontece, o bordão deixa de ser apenas do comunicador que o criou.

Passa a pertencer à memória popular.

Eugênio Oliveira

Blog Entre Linhas & Vivências.

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