Esse Sou Eu

Um dia, muitos anos atrás, meu pai, Luiz Felicio, olhou para mim e disse que eu era um bon vivant. Naquele momento, confesso que nem sabia direito o significado daquela expressão. Talvez por isso mesmo ela tenha ficado guardada em algum lugar da minha memória. Meu pai já se foi, mas algumas palavras ditas por aqueles que amamos possuem uma estranha capacidade de sobreviver ao tempo. Anos depois fui procurar o significado daquele termo francês e descobri que bon vivant, ou “bom vivente”, é uma maneira de definir alguém que aprecia os prazeres da vida, a boa comida, uma boa bebida, as festas, os encontros, a convivência, o lazer e tudo aquilo que torna a existência mais agradável. Quanto mais eu lia, mais pensava: meu pai tinha razão.

Mas ser um bon vivant, pelo menos da maneira como passei a compreender a expressão, não significa viver irresponsavelmente em busca do prazer. Muito menos fugir das obrigações. No meu caso, talvez seja exatamente o contrário. Sempre gostei de trabalhar, produzir, organizar, planejar e realizar, mas nunca aceitei a ideia de que viver deva se resumir a trabalhar. Gosto de aproveitar os bons momentos, reunir pessoas, conversar, viajar quando possível, comer bem, celebrar, descansar e desfrutar aquilo que a vida oferece. Aprendi que trabalhar e viver não precisam ser adversários. É possível cumprir nossas responsabilidades e, ao mesmo tempo, reservar espaço para aquilo que nos proporciona alegria. Como diz a sabedoria popular, é preciso saber unir o útil ao agradável.

Talvez exista aí uma aparente contradição na minha personalidade. De um lado está o homem que gosta da leveza, da convivência e dos prazeres da vida; do outro, existe alguém profundamente orientado pela disciplina, pelo trabalho, pela correção e pela responsabilidade. Valorizo a honestidade, a justiça, a integridade, a qualidade, o esforço, o cumprimento das regras e a capacidade de cada pessoa assumir as consequências de suas próprias escolhas. Gosto de saber o que precisa ser feito, quando começar e onde se pretende chegar. Tarefas claramente definidas me estimulam. Projetos bem estruturados despertam minha disposição. E quando acredito numa ideia, especialmente quando ela está ligada a uma causa que considero justa ou nobre, dificilmente me falta energia para seguir adiante.

Existe, porém, uma palavra que talvez explique boa parte de quem sou: melhorar. Tenho uma necessidade quase permanente de aperfeiçoamento. Se alguma coisa pode ficar melhor, tenho dificuldade em simplesmente deixá-la como está. Gosto de corrigir detalhes, reorganizar, reformar aquilo que precisa ser reformado, rever processos e procurar outra maneira de fazer. Isso vale para o trabalho, para os projetos e também para mim. Aos 63 anos, continuo preocupado em melhorar meu caráter, minhas habilidades, meus conhecimentos e minha maneira de compreender o mundo. Não acredito que a idade nos conceda o direito de parar de aprender. Pelo contrário: quanto mais vivemos, mais percebemos o quanto ainda desconhecemos.

Reconheço, entretanto, que toda qualidade levada ao extremo pode produzir dificuldades. Minha busca pela qualidade pode se transformar em exigência. Meu senso de responsabilidade pode fazer com que eu espere dos outros a mesma maneira de agir que espero de mim. Minha preocupação com regras, justiça, organização e correção pode tornar difícil aceitar comportamentos que considero descuidados, injustos ou irresponsáveis. Nem sempre as pessoas enxergam o mundo da mesma maneira que eu. Nem sempre trabalham no mesmo ritmo, possuem os mesmos critérios ou atribuem importância aos mesmos detalhes. E admitir isso talvez também faça parte do processo de aperfeiçoamento que tanto valorizo.

Com o passar dos anos, tenho compreendido que melhorar a nós mesmos também significa aprender a conviver com aquilo que não podemos moldar nos outros. As pessoas não existem para corresponder exatamente às nossas expectativas. Relacionamentos exigem tolerância, diálogo e, algumas vezes, a sabedoria de perceber que estar certo não é necessariamente mais importante do que preservar uma relação. Continuo defendendo aquilo em que acredito, mas a vida vem me ensinando que firmeza e compreensão podem, e devem, caminhar juntas.

Hoje, quando olho para minha história, vejo muito mais do que uma profissão ou uma sequência de acontecimentos. Nasci em Fortaleza, no Ceará, em 1962. Tornei-me contador, empresário e, ao longo da vida, construí uma trajetória profissional baseada no trabalho e na responsabilidade. Mas seria muito pouco tentar explicar quem sou apenas pelo que faço profissionalmente. Eu sou também aquilo que construí fora do trabalho.

Sou pai de quatro filhos e também tenho dois enteados que fazem parte da minha história familiar. Sou avô de sete netos. Tenho quatro irmãos, todos homens. Vivi a dor de perder minha primeira esposa e conheci, depois, a possibilidade de reconstruir a vida afetiva. Casei novamente e hoje posso dizer que sou um homem bem casado e feliz. A vida me ensinou, algumas vezes de maneira dura, que determinados capítulos terminam sem que estejamos preparados, mas também mostrou que um final não precisa significar o fim de nossa capacidade de amar, construir e ser feliz novamente.

Talvez seja justamente a família que tenha me ajudado a compreender melhor aquilo que meu pai percebeu tantos anos atrás quando me chamou de bon vivant. Saber viver não é apenas apreciar uma boa mesa ou aproveitar momentos de lazer. Saber viver é reconhecer o valor das pessoas enquanto podemos estar com elas. É sentar à mesa com os filhos. É acompanhar o crescimento dos netos. É conversar com os irmãos. É dividir a vida com quem escolheu permanecer ao nosso lado. É trabalhar, mas saber a hora de parar. É construir patrimônio, mas entender que existem riquezas que jamais aparecerão numa conta bancária.

Aos 63 anos, também sei que minha história não é feita apenas de acertos. Cometi erros, tomei decisões que talvez hoje tomasse de maneira diferente, fui exigente quando poderia ter sido mais tolerante e certamente deixei passar oportunidades que somente depois consegui enxergar. Mas não tenho interesse em construir uma versão idealizada de mim mesmo. Conhecer-se também é ter coragem para reconhecer as próprias imperfeições. Se há alguma coisa de que me orgulho, é de continuar desejando melhorar.

Hoje compreendo ainda outra coisa: autossuficiência não significa não precisar de ninguém. Durante muito tempo podemos imaginar independência como a capacidade de resolver tudo sozinhos. A maturidade mostra justamente o contrário. Somos resultado também das pessoas que passaram pela nossa vida. Carrego ensinamentos dos meus pais, experiências construídas com meus irmãos, aprendizados dos meus relacionamentos, desafios enfrentados no trabalho, alegrias proporcionadas pelos filhos e uma forma diferente de enxergar o tempo desde que me tornei avô.

E entre todas essas pessoas está aquele homem que, muitos anos atrás, usou duas palavras em francês para me definir sem imaginar que um dia elas se transformariam numa reflexão sobre minha própria vida.

Bon vivant.

Talvez meu pai tivesse percebido em mim algo que eu ainda não conseguia enxergar.

Hoje consigo.

Gosto da vida. Gosto de trabalhar, mas também gosto de viver. Gosto das coisas bem-feitas, da organização e da qualidade. Gosto da justiça e procuro agir corretamente. Sou exigente, inclusive comigo mesmo. Gosto de aprender, melhorar, construir e recomeçar. Tenho defeitos que conheço e outros que provavelmente ainda preciso descobrir. Amo minha família, valorizo minhas amizades e acredito que a felicidade não está necessariamente em possuir muito, mas em saber aproveitar e agradecer aquilo que temos.

Não sei se essa definição cabe perfeitamente nos dicionários.

Mas cabe em mim.

Meu pai estava certo.

Sou um bon vivant.

Não porque tenha vivido uma vida sem dificuldades, perdas ou responsabilidades, mas porque, apesar de tudo isso, continuo gostando profundamente de viver.

Opinião do autor

Aos 63 anos, não pretendo dizer que descobri uma fórmula para a felicidade. Descobri apenas algumas coisas que funcionam para mim: trabalhar com seriedade, agir com honestidade, buscar fazer bem-feito aquilo que me proponho a fazer, defender aquilo que considero justo, reconhecer meus erros, tentar melhorar e não esquecer de aproveitar a vida enquanto ela acontece. Aprendi também que nenhuma conquista profissional substitui a família, nenhum patrimônio compra o amor dos filhos e nenhum sucesso compensa uma existência que não tivemos tempo de viver. Talvez meu pai tenha resumido tudo isso antes de mim quando disse que eu era um bon vivant. Demorei muitos anos para entender. Hoje entendo. E gosto da definição.

Esse sou eu.

Eugênio Oliveira
Blog Entre Linhas & Vivências

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