FARMAR AURA – QUANDO OS JOVENS RESOLVEM UTILIZAR UMA EXPRESSÃO DE UMA FORMA EQUIVOCADA

A linguagem está em constante transformação. Cada geração cria suas gírias, reinventa palavras e atribui novos significados a expressões que já existiam. Isso faz parte da evolução natural da comunicação. O problema começa quando determinadas palavras passam a ser utilizadas de uma forma que esvazia ou até distorce completamente o seu significado original.

Um exemplo recente é a expressão “farmar aura”, bastante utilizada entre os jovens e nas mídias sociais.

O verbo “farmar” vem do universo dos jogos eletrônicos. Nos games, significa repetir determinadas ações com o objetivo de acumular pontos, moedas, experiência, equipamentos ou algum outro recurso que permita ao jogador evoluir.

Até aí, tudo bem.

A coisa começa a ficar interessante quando resolveram juntar “farmar” com “aura”.

A palavra aura, tradicionalmente, está associada a algo que emana de uma pessoa, a uma presença, atmosfera ou impressão particular que alguém transmite. Ou seja, se existe algo que deveria surgir espontaneamente da personalidade, da postura, da experiência e da maneira de ser de cada indivíduo, seria justamente a sua aura.

Mas, nas redes sociais, “farmar aura” passou a representar algo diferente: fazer alguma coisa considerada impressionante, estilosa, corajosa ou socialmente valorizada para acumular uma espécie de pontuação imaginária de prestígio.

Fez algo considerado genial? Ganhou aura.

Cometeu uma vergonha? Perdeu aura.

Fez uma entrada triunfal? +1000 de aura.

Tropeçou na frente de todo mundo? -500 de aura.

É divertido? Pode ser.

O problema é quando essa brincadeira começa a revelar algo muito maior sobre o comportamento das pessoas.

A AURA QUE PRECISA SER FARMADA TALVEZ JÁ NÃO SEJA AURA

Na minha visão, existe uma contradição interessante nessa expressão.

Se a aura representa justamente aquilo que uma pessoa transmite naturalmente, como alguém poderia “farmá-la”?

É quase como fabricar espontaneidade.

Quando começamos a praticar determinadas atitudes pensando exclusivamente em como seremos percebidos pelos outros, deixamos de agir naturalmente e passamos a representar um personagem.

E as mídias sociais potencializaram esse comportamento.

Hoje, muita gente não vive apenas uma experiência. Precisa mostrar que viveu.

Não vai apenas a determinado lugar. Precisa registrar.

Não pratica apenas uma boa ação. Precisa publicar.

Não tem apenas uma opinião. Precisa transformá-la em conteúdo.

Não basta ser.

É preciso parecer.

E, preferencialmente, parecer interessante.

Nesse sentido, “farmar aura” se aproxima perigosamente de algo que já conhecemos muito bem: farmar likes, visualizações, seguidores e aprovação.

QUANDO A VIDA VIRA UM PLACAR

Talvez o aspecto mais curioso dessa nova cultura seja justamente a transformação das relações humanas em uma espécie de videogame.

Tudo parece possuir pontuação.

Seguidores.

Curtidas.

Visualizações.

Compartilhamentos.

Comentários.

Engajamento.

E agora até “aura”.

Criamos uma geração extremamente conectada, mas que também precisa lidar diariamente com sistemas que medem sua relevância através de números.

É importante compreender que os jovens não inventaram sozinhos esse cenário. As próprias plataformas digitais foram estruturadas dessa maneira. Elas nos apresentam permanentemente números capazes de produzir comparação.

Quem tem mais seguidores?

Quem alcançou mais pessoas?

Quem viralizou?

Quem está em alta?

Quem conseguiu mais atenção?

Nesse ambiente, não deveria surpreender que até características subjetivas da personalidade acabassem transformadas em pontos imaginários.

AUTENTICIDADE NÃO SE FARMA

Foi justamente essa reflexão que me levou à canção “Farmar Aura” – PS CARVALHO, no ritmo rock, que a partir de hoje, dia 14 de agosto de 2026, está disponível em todas as plataformas de música.

A música utiliza essa expressão contemporânea para provocar uma discussão maior sobre comportamento, aparência, autenticidade e necessidade de aprovação.

Não tenho qualquer intenção de estabelecer uma guerra entre gerações. Muito menos dizer que os jovens não podem criar suas próprias expressões. Sempre fizeram isso e continuarão fazendo.

Minha provocação é outra.

Talvez estejamos chegando a um ponto em que precisamos perguntar:

Estamos vivendo para sermos quem realmente somos ou estamos constantemente representando aquilo que acreditamos que os outros querem ver?

Existe uma diferença enorme.

A personalidade construída exclusivamente para impressionar os outros pode conquistar curtidas.

Pode conquistar seguidores.

Pode gerar visualizações.

Pode até “farmar aura”.

Mas dificilmente será capaz de substituir aquilo que considero muito mais importante: autenticidade.

Porque personalidade não deveria ser competição.

Carisma não deveria possuir placar.

Gentileza não deveria depender de câmera ligada.

Coragem não deveria existir apenas quando alguém está filmando.

E uma boa atitude não deveria valer mais simplesmente porque viralizou.

TALVEZ ESTEJAMOS FARMANDO A COISA ERRADA

Se a juventude decidiu transformar a vida em um grande sistema de pontuação, deixo uma provocação.

Que tal mudar aquilo que estamos tentando acumular?

Vamos “farmar” conhecimento.

Farmar respeito.

Farmar amizade.

Farmar cultura.

Farmar solidariedade.

Farmar experiências verdadeiras.

Farmar boas histórias.

Farmar caráter.

Essas conquistas talvez não viralizem.

Talvez não rendam milhares de curtidas.

Talvez não façam ninguém ganhar “+10.000 de aura” nas redes sociais.

Mas ajudam a construir alguma coisa muito mais importante: *uma vida com conteúdo para além da aparência.*

No final das contas, talvez a verdadeira aura seja justamente aquela que você não precisa farmar.

Ela simplesmente aparece.

Porque nasce de quem você é.

PS CARVALHO

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