Fidelidade: A Paz de Quem Não Precisa Esconder Nada

Fidelidade é uma palavra que costumamos associar imediatamente ao casamento, mas seu significado é muito mais amplo. Ser fiel é respeitar um compromisso assumido com outra pessoa, seja numa relação amorosa, numa amizade, numa sociedade empresarial ou em qualquer vínculo construído sobre confiança. Fidelidade é caminhar ao lado da sinceridade, da honestidade e do respeito. É agir corretamente não apenas quando alguém está olhando, mas principalmente quando ninguém está.

No casamento, a fidelidade representa o respeito à pessoa com quem decidimos compartilhar a vida. Não deveria existir diferença nesse compromisso entre homem e mulher: aquilo que esperamos receber também precisamos estar dispostos a oferecer. Se desejamos respeito, devemos respeitar. Se queremos sinceridade, precisamos ser sinceros. Se esperamos lealdade, devemos agir com lealdade. Parece simples, mas talvez esteja justamente aí uma das grandes dificuldades das relações humanas: muitas vezes cobramos do outro comportamentos que nós mesmos não estamos preparados para praticar.

Essa reflexão me leva a um dos ensinamentos mais conhecidos de Jesus: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Há uma profundidade enorme nessas poucas palavras. Se verdadeiramente conseguíssemos transportá-las para nossas relações, muitas de nossas atitudes seriam diferentes. Antes de enganar alguém, perguntaríamos se gostaríamos de ser enganados. Antes de trair uma confiança, pensaríamos na dor de termos nossa própria confiança traída. Antes de prejudicar alguém em benefício próprio, imaginaríamos como nos sentiríamos se estivéssemos do outro lado.

Por isso, para mim, fidelidade também significa ter a consciência limpa. Existe uma tranquilidade que não se compra e que nenhum bem material consegue substituir: colocar a cabeça no travesseiro sabendo que não precisamos temer que uma mentira seja descoberta, que não construímos nossa felicidade sobre o sofrimento de alguém e que procuramos fazer aquilo que nossa consciência reconhece como correto. Podemos cometer erros — todos cometemos —, mas existe uma grande diferença entre errar e deliberadamente escolher enganar.

Acredito profundamente que nossas atitudes produzem consequências. Algumas pessoas chamam isso de lei da causa e efeito; outras falam em colher aquilo que plantamos. A própria tradição cristã utiliza essa imagem quando ensina que aquilo que o homem semear, isso também colherá. Não vejo isso necessariamente como uma espécie de punição automática em que cada erro será devolvido exatamente da mesma maneira. A vida é muito mais complexa do que uma simples conta matemática. Mas acredito que nossas escolhas deixam marcas em nós, nas pessoas e nos caminhos que construímos.

Quem mente repetidamente destrói confiança. Quem engana compromete relacionamentos. Quem age com deslealdade pode conquistar alguma vantagem momentânea, mas frequentemente paga um preço na própria consciência, na reputação ou nos vínculos que perde pelo caminho. Da mesma maneira, quem cultiva honestidade, respeito e fidelidade constrói algo que talvez leve anos para amadurecer, mas possui enorme valor: credibilidade e paz de espírito.

Minha fé acrescenta outra dimensão a essa reflexão. Acredito em um Deus justo, mas também misericordioso. Para quem tem fé, não existe apenas a preocupação com aquilo que os outros podem descobrir. Existe a consciência de que nossos atos, nossas intenções e a maneira como tratamos o próximo fazem parte da relação que construímos com Deus. Podemos esconder uma atitude das pessoas, mas não podemos escondê-la de nossa própria consciência — e, para quem acredita, muito menos de Deus.

Entretanto, acreditar na justiça divina não deve nos levar ao desejo de vingança. Se alguém nos engana, isso não significa que devemos esperar ansiosamente que essa pessoa sofra para “pagar” pelo que fez. A misericórdia que esperamos receber também precisa encontrar espaço na maneira como olhamos os erros alheios. Justiça e misericórdia podem caminhar juntas. Podemos reconhecer o erro, estabelecer limites, afastar-nos quando necessário e, ainda assim, não alimentar o desejo de destruir quem nos feriu.

Fidelidade, portanto, não é apenas não trair. É ser inteiro naquilo que fazemos. É honrar a palavra dada. É não ludibriar alguém para obter vantagem. É respeitar uma amizade mesmo quando o amigo não está presente. É agir corretamente nos negócios mesmo quando seria fácil esconder uma irregularidade. É preservar um compromisso mesmo quando aparece uma oportunidade de quebrá-lo sem aparentemente sofrer consequências.

Ao final, cada um de nós precisa conviver com aquilo que construiu durante sua passagem pela vida. Dinheiro, posição e aparências podem impressionar outras pessoas durante algum tempo. A consciência, porém, conhece nossa verdadeira história.

Talvez por isso a fidelidade tenha tanto valor. Ela não é apenas um compromisso com o outro. É também um compromisso conosco, com nossos princípios e, para aqueles que têm fé, com Deus.

Ser fiel é poder olhar para quem caminha ao nosso lado sem precisar esconder quem realmente somos. É viver com a consciência tranquila de que procuramos fazer ao próximo aquilo que também desejaríamos receber: respeito, verdade, honestidade e amor. E poucas coisas proporcionam tanta paz quanto saber que, mesmo imperfeitos, escolhemos caminhar pelo lado certo da nossa consciência.

Eugênio Oliveira

Blog Entre Linhas & Vivências

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