Muitas vezes passamos uma parte da vida desejando aquilo que ainda não temos. Pedimos, fazemos planos, criamos expectativas e imaginamos que determinada conquista será fundamental para a nossa felicidade. Quando aquilo não acontece, podemos nos entristecer e até questionar por que Deus, sendo nosso Pai, não nos concedeu algo que desejávamos tanto. É nesses momentos que talvez precisemos compreender uma das dimensões mais difíceis da fé: acreditar em Deus não significa esperar que Ele faça exatamente aquilo que queremos, mas confiar que Sua vontade pode alcançar lugares que a nossa compreensão ainda não consegue alcançar.
Quem é pai ou mãe conhece bem essa experiência. Quando nossos filhos chegam ao mundo, nasce conosco uma responsabilidade que vai muito além de satisfazer seus desejos. Nós cuidamos, orientamos, aconselhamos e procuramos protegê-los. Queremos oferecer tudo aquilo que estiver ao nosso alcance, mas sabemos também que amar um filho não significa dizer sim para tudo. Há momentos em que precisamos negar alguma coisa justamente porque acreditamos que ela não lhe fará bem. O filho, principalmente quando ainda é pequeno, pode não compreender. Pode reclamar, ficar triste ou imaginar que estamos sendo injustos. Ele enxerga apenas aquilo que deseja naquele momento; nós tentamos enxergar as consequências que aquela escolha poderá produzir mais adiante.
Talvez exista nessa relação uma maneira simples de compreendermos nossa própria relação com Deus. Se nós, com todas as nossas limitações humanas, procuramos oferecer aos nossos filhos aquilo que acreditamos ser melhor para suas vidas, por que seria diferente com o Pai que está no céu? Nós pedimos baseados no que conseguimos enxergar agora. Deus, pela fé que professamos, conhece aquilo que não vemos. Talvez algumas das coisas que não recebemos tenham sido justamente aquelas das quais precisávamos ser protegidos. Talvez determinadas portas tenham permanecido fechadas porque existiam caminhos que ainda não conhecíamos. Nem sempre teremos uma explicação imediata, e algumas respostas talvez jamais cheguem da maneira que esperamos. É justamente aí que começa a confiança.
Isso não significa cruzar os braços e simplesmente esperar que Deus resolva nossa vida. Temos inteligência, capacidade de escolha e responsabilidade sobre nossos atos. Precisamos trabalhar, estudar, planejar, perseverar e lutar por nossos objetivos. A fé não substitui nossa responsabilidade; ela nos acompanha enquanto fazemos aquilo que está ao nosso alcance. O que precisamos evitar é acreditar que somente seremos felizes se conseguirmos exatamente aquilo que desejamos. A experiência mostra que muitas vezes aquilo que parecia indispensável ontem perde completamente a importância algum tempo depois. Outras vezes, algo que consideramos uma grande frustração acaba nos conduzindo para uma situação melhor.
Talvez por isso devêssemos aprender não apenas a pedir, mas também a agradecer. Temos uma facilidade enorme para perceber aquilo que nos falta e, ao mesmo tempo, uma surpreendente capacidade de nos acostumarmos com aquilo que possuímos. Acordamos pela manhã, levantamos da cama, caminhamos, pensamos, conversamos, trabalhamos, abraçamos quem amamos e seguimos nossas atividades como se tudo isso estivesse naturalmente garantido. Não está. Cada novo amanhecer representa uma oportunidade que nos foi concedida mais uma vez.
Basta olharmos ao nosso redor para compreendermos o valor dessa oportunidade. Há pessoas enfrentando doenças graves, outras convivendo com limitações provocadas por acidentes ou deficiências, famílias sem uma moradia digna e seres humanos que chegam ao final do dia sem saber se terão alimento suficiente. Reconhecer essas realidades não significa comparar sofrimentos ou imaginar que devemos sentir culpa pelas condições que possuímos. Significa apenas perceber que existem bênçãos tão presentes em nossa rotina que corremos o risco de deixar de enxergá-las.
Entre todas elas, talvez a saúde seja uma das maiores. Podemos desejar dinheiro, patrimônio, reconhecimento profissional, conforto e tantas outras conquistas legítimas, mas basta a saúde faltar para compreendermos rapidamente como muitas dessas coisas mudam de posição na nossa escala de prioridades. Acordar com saúde e disposição para enfrentar mais um dia é uma riqueza silenciosa. Talvez não provoque a mesma euforia de uma grande conquista material, mas sustenta praticamente todas as outras possibilidades da nossa existência.
E há algo ainda mais bonito em cada manhã: ela nos devolve a possibilidade de fazer melhor. Podemos ter errado ontem, podemos ter sido injustos, impacientes ou negligentes. Podemos ter deixado alguma tarefa incompleta, magoado alguém ou simplesmente não ter oferecido o melhor de nós. Mas, se recebemos um novo dia, recebemos também outra oportunidade. Podemos trabalhar melhor, pedir desculpas, ajudar alguém, cuidar da família, aprender alguma coisa, corrigir um comportamento ou simplesmente tentar ser uma pessoa melhor do que fomos no dia anterior.
Talvez uma das orações mais sinceras que possamos fazer ao despertar seja agradecer antes de pedir. Agradecer pela vida, pela saúde, pela família e pela oportunidade de começar novamente. Depois, podemos pedir a Deus que nos proteja, ilumine nossos caminhos e nos conceda sabedoria para enfrentar aquilo que o dia apresentar. Não precisamos pedir somente que Ele retire as dificuldades da nossa frente. Podemos pedir também força para atravessá-las, discernimento para compreender aquilo que estiver ao nosso alcance e serenidade para aceitar aquilo que não pudermos mudar.
A gratidão tem essa capacidade de mudar nossa maneira de enxergar a existência. Quando concentramos nossa atenção exclusivamente naquilo que falta, sempre encontraremos alguma razão para a insatisfação. Sempre haverá alguém que possui mais, chegou mais longe ou conquistou aquilo que ainda desejamos. Mas quando aprendemos a reconhecer aquilo que já está conosco, começamos a perceber uma riqueza que muitas vezes esteve diante de nossos olhos durante toda a vida: a família, os filhos, os netos, os amigos, uma casa, o alimento, o trabalho, a capacidade de amar, de pensar, de aprender e, principalmente, de recomeçar.
Talvez seja necessário também rever nossa maneira de interpretar algumas respostas de Deus. Nem todo “não” significa abandono. Nem toda demora significa esquecimento. Nem toda porta fechada representa uma punição. Há coisas que somente o tempo consegue explicar. Quantas vezes lamentamos profundamente uma situação e, anos depois, olhando para trás, percebemos que aquele caminho teria nos levado para um lugar muito diferente daquele onde gostaríamos de estar? É nesses momentos que compreendemos que nem sempre aquilo que queríamos era necessariamente aquilo de que precisávamos.
Como pai, aprendi que amar também é orientar. É aconselhar quando sabemos que nossos filhos talvez preferissem ouvir outra coisa. É tentar protegê-los mesmo sabendo que chegará um momento em que precisarão fazer suas próprias escolhas. É oferecer aquilo que podemos, mas também ter responsabilidade suficiente para compreender que nem tudo aquilo que um filho deseja necessariamente contribuirá para sua felicidade. Se conseguimos compreender isso na nossa limitada condição humana, talvez possamos também aceitar que o Pai Celestial não precise atender a todos os nossos pedidos para demonstrar Seu amor.
A fé, portanto, não pode ser uma espécie de contrato no qual acreditamos em Deus em troca da realização dos nossos desejos. Ela precisa ser maior do que isso. Ter fé é confiar também quando não entendemos. É continuar caminhando quando a estrada não corresponde ao percurso que havíamos planejado. É fazer a nossa parte e aceitar que existem acontecimentos sobre os quais não temos controle. É olhar para aquilo que recebemos e reconhecer que a vida, apesar de todas as dificuldades, continua nos oferecendo motivos para agradecer.
Aos poucos, vamos compreendendo que talvez a pergunta não deva ser apenas “por que Deus ainda não me deu aquilo que pedi?”, mas também “tenho agradecido suficientemente por tudo aquilo que já recebi?”. Essa mudança aparentemente simples transforma muita coisa. Ela não elimina nossos sonhos nem diminui nossa vontade de conquistar. Apenas coloca nossos desejos no lugar correto e nos ajuda a perceber que a felicidade não pode ficar eternamente condicionada à próxima conquista.
Opinião do autor
Tenho aprendido que não preciso compreender todos os caminhos de Deus para confiar Nele. Como pai, sei que muitas vezes aconselhei meus filhos, procurei protegê-los e nem sempre pude ou quis lhes dar tudo aquilo que desejavam, justamente porque acreditava estar fazendo o melhor para eles. Por que seria diferente com o nosso Pai Celestial? Quero continuar sonhando, trabalhando e lutando pelos meus objetivos, mas também quero aprender cada vez mais a agradecer pela vida que já tenho, principalmente pela saúde, pela família e por cada manhã em que recebo uma nova oportunidade de fazer melhor. E quando aquilo que eu pedir não acontecer, quero ter fé suficiente para aceitar que talvez exista um caminho que hoje ainda não consigo enxergar.
No final, talvez seja essa a verdadeira confiança: fazer tudo aquilo que estiver ao nosso alcance, oferecer o melhor de nós em cada situação e entregar a Deus aquilo que não conseguimos controlar. Agradecer quando recebemos, confiar quando esperamos e continuar caminhando quando a resposta não for aquela que desejávamos.
Porque nem sempre precisamos conhecer antecipadamente toda a estrada.
Às vezes, precisamos apenas pedir que Deus ilumine o próximo passo.
E seguir.
Creio Naquele que me fortalece.
Eugênio Oliveira
Blog Entre Linhas & Vivências




