A Justiça não se sustenta apenas em leis, tribunais e sentenças. Existe um elemento menos visível, mas indispensável ao funcionamento de qualquer sistema judicial: a confiança da sociedade em quem julga. Uma Suprema Corte não precisa agradar à população nem decidir conforme a opinião da maioria — sua função é interpretar e proteger a Constituição. Mas, para exercer tamanha autoridade, precisa transmitir independência, imparcialidade, transparência e respeito às próprias regras.
O Brasil atravessa, neste setembro de 2026, um momento especialmente delicado envolvendo o Supremo Tribunal Federal. A crise ganhou nova dimensão com os desdobramentos das investigações relacionadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro, que provocaram questionamentos e divergências envolvendo ministros da própria Corte. Em 15 de setembro, o STF encerrou uma sessão sem decidir se o ministro Alexandre de Moraes poderia ser investigado por sua suposta relação com o ex-banqueiro. O ministro Flávio Dino pediu vista, e a questão ficou pendente. As alegações ainda estão em apuração e, portanto, não devem ser tratadas como fatos comprovados.
A gravidade institucional do momento não é reconhecida apenas pelos críticos habituais do Supremo. Treze ex-ministros da própria Corte enviaram uma carta ao presidente Edson Fachin pedindo apuração rigorosa dos fatos e classificando a situação como a “mais aguda crise” da história do STF. Segundo eles, os episódios atingem a confiança pública na Justiça e podem afetar as próprias instituições democráticas.
Os números ajudam a compreender o tamanho do desgaste. Pesquisa Datafolha realizada entre 8 e 10 de setembro com 2.002 eleitores, em 125 cidades, mostrou que 76% consideram que os ministros do STF possuem poder excessivo e 77% percebem que a Corte é menos acreditada hoje do que no passado. Ao mesmo tempo, um dado importante impede uma leitura simplista da situação: 71% consideram o STF essencial para a democracia. Ou seja, uma parcela expressiva da sociedade questiona a maneira como o poder da Corte vem sendo exercido, mas continua reconhecendo a importância da instituição.
Essa distinção é fundamental. Criticar ministros ou decisões não significa desejar uma Suprema Corte enfraquecida. Ao contrário: numa democracia, instituições fortes precisam aceitar fiscalização, questionamentos e prestação de contas. O próprio presidente do STF, Edson Fachin, afirmou recentemente que a confiança pública precisa ser conquistada diariamente e relacionou a legitimidade do Judiciário à ética, integridade, transparência e prestação de contas.
Mas o que acontece quando uma Suprema Corte perde credibilidade? As decisões continuam juridicamente válidas, porém cresce o risco de uma parcela da população passar a interpretá-las não pelo conteúdo das leis, mas pela identidade de quem julga. Surge então um problema perigoso: decisões favoráveis são aceitas e decisões contrárias passam automaticamente a ser vistas como políticas ou parciais. Quando a confiança desaparece, até uma decisão juridicamente correta pode nascer cercada de suspeitas.
A independência judicial é indispensável e precisa ser protegida inclusive contra pressões políticas. Mas independência não pode significar ausência de responsabilidade institucional. Quanto maior o poder de uma instituição, maior deve ser seu compromisso com transparência, imparcialidade e limites claramente compreensíveis pela sociedade.
O Brasil não precisa de um Supremo submisso ao governo, ao Congresso, às redes sociais, à direita ou à esquerda. Precisa de uma Suprema Corte suficientemente independente para contrariar qualquer um deles quando a Constituição assim exigir — e suficientemente transparente para que a sociedade compreenda por que decidiu daquela maneira.
Talvez seja esse o verdadeiro tamanho da crise atual. Ela não envolve apenas determinados ministros ou processos. Coloca diante do país uma questão muito maior: como preservar a autoridade de quem tem a última palavra sobre a Constituição quando cresce a desconfiança em relação a quem pronuncia essa palavra?
Recuperar confiança leva muito mais tempo do que perdê-la. E, quando se trata da mais alta Corte de Justiça de uma nação, essa não deveria ser uma preocupação apenas dos ministros do STF.
Deveria ser uma preocupação de todos nós.




