Tio Raimundo e Seu Fusca: Um Amor para a Vida Toda

Quando penso no meu tio Raimundo, irmão do meu pai, é quase impossível separar a sua imagem da de um Fusca. Durante toda a minha vida, foi assim que o conheci: tio Raimundo e seu Fusca. Não era simplesmente um carro estacionado na garagem. Era quase um companheiro, uma extensão de sua personalidade e, certamente, uma de suas grandes paixões.

Eu gostava de provocá-lo. Quando o encontrava, bastava olhar para o Fusca e dizer:

— Tio, esse carro velho é muito ruim!

A reação era imediata. Ele dava um pulo e respondia:

— Tu é doido? Esse carro não tem igual!

E começava a defesa. Falava da resistência, da mecânica, do desempenho nas estradas e garantia que seu Fusca deixava muito carro para trás. Havia ainda um detalhe do qual ele se orgulhava especialmente: o rádio tinha uma antena automática que subia e descia por controle. Hoje, diante de tanta tecnologia presente nos automóveis, pode parecer uma coisa simples. Para tio Raimundo, porém, aquilo era extraordinário. Ele acionava a antena e mostrava a novidade com uma satisfação que fazia a gente sorrir.

Mas, por trás daquele homem apaixonado pelo Fusca, existia uma história de simplicidade, trabalho e muito talento.

Meu pai contava que Raimundo demorou a começar sua vida profissional. Segundo ele, quando jovem, meu tio gostava de ficar tranquilamente deitado numa rede, empurrando o pé na parede, enquanto minha avó reclamava:

— Raimundo, vai arrumar um trabalho!

E ele permanecia ali, na maior tranquilidade.

O tempo passou, Raimundo foi trabalhar na Base Aérea de Fortaleza e lá construiu sua vida profissional até se aposentar. Casou-se com tia Carmélia e tiveram um filho, meu primo João Bosco. Era um homem humilde, de vida simples, mas possuía algo que sempre despertou a admiração de meu pai: uma enorme habilidade para construir, consertar e criar coisas com as próprias mãos.

A própria casa onde viveu, no bairro da Aerolândia, em Fortaleza, foi construída por ele. Meu pai falava disso com admiração. Para aquela geração, saber fazer as coisas com as próprias mãos era motivo de orgulho, e tio Raimundo parecia ter recebido esse dom em abundância.

Eu mesmo tive oportunidade de testemunhá-lo.

Meu pai possuía um sítio e havia lá um açude onde costumávamos passar bons momentos em família. Certo dia, tio Raimundo resolveu construir um pequeno barco. Não ficou apenas na conversa ou no projeto. Foi lá e fez.

E o barco navegou.

Não era uma grande embarcação, nem precisava ser. Era suficientemente grande para que pudéssemos passear pelo açude e pescar. Durante muito tempo, nós nos divertimos naquele pequeno barco feito pelas mãos de tio Raimundo. Naquela época, talvez eu não percebesse o valor daquilo. Hoje percebo. Não era apenas madeira transformada em barco. Era habilidade transformada em lembrança.

Talvez exista também nessa história uma dessas heranças familiares que não aparecem em documentos nem são divididas em inventários.

Somos cinco irmãos, e certa vez meu pai me disse que, entre os filhos, eu era aquele que tinha mais facilidade para fazer e consertar diferentes coisas. Quando alguma coisa quebrava, muitas vezes ele me procurava. Eu observava, tentava compreender o problema e quase sempre encontrava um jeito.

Com o passar dos anos, comecei a perceber que talvez aquela habilidade tivesse caminhado pela família. Estava em tio Raimundo e, de alguma maneira, apareceu também em mim. São características que atravessam gerações silenciosamente. Um dia nos olhamos e percebemos no nosso jeito de ser alguma coisa daqueles que vieram antes de nós.

Meu pai tinha uma loja de tintas, construída com muito trabalho, que existe até hoje. De vez em quando, tio Raimundo passava por lá, ele fazia questão de nos lembrar da importância daquilo que seu irmão havia construído. Com orgulho, dizia que aquela loja era fruto do esforço do nosso pai e que nós, seus filhos, tínhamos a responsabilidade de levá-la adiante. E assim aconteceu. A loja atravessou gerações e permanece em atividade até hoje, com 64 anos de existência. Lembro dessas palavras de tio Raimundo porque elas também revelavam muito sobre ele: o respeito que tinha pelo irmão e o valor que atribuía ao trabalho, à família e à continuidade daquilo que uma geração constrói para deixar às seguintes.

Mas entre todas as lembranças que guardo de tio Raimundo, existe uma que se tornou especial.

Foi a última vez que estive com ele.

Fui visitá-lo em sua casa. Ele já estava com idade avançada e tinha muita dificuldade para se levantar. O corpo já não acompanhava aquele homem que havia construído casa, feito barco, consertado tantas coisas e trabalhado durante tantos anos.

Conversamos.

Em determinado momento, porém, parece que alguma coisa dentro dele falou mais alto.

Era preciso me mostrar o Fusca.

Mesmo com toda a dificuldade, tio Raimundo se levantou e me levou até o carro. Talvez eu já tivesse visto aquele Fusca dezenas de vezes. Talvez já conhecesse de cor todos os argumentos que ele usaria para defendê-lo. Mas naquele dia foi diferente.

Ele olhou para o carro e me disse:

— Esse carro não tem igual. É para a vida toda.

E eu vi a alegria nos olhos dele.

A mesma alegria de tantos anos antes, quando eu brincava dizendo que seu carro era velho e ruim. O tempo havia envelhecido o homem, mas não tinha envelhecido aquela paixão.

Hoje, quando recordo aquele momento, penso que talvez tio Raimundo não estivesse falando apenas do Fusca.

Algumas coisas realmente são para a vida toda.

O carro envelhece. A antena automática um dia deixa de subir. O pequeno barco desaparece. A casa fica. As pessoas partem. Mas permanecem as histórias, os gestos, as brincadeiras, os ensinamentos e aquilo que herdamos delas sem sequer perceber.

A fotografia daquele nosso último encontro passou a representar tudo isso para mim. Quando olho para ela, não vejo apenas meu tio já idoso ao lado de seu querido Fusca. Vejo o homem habilidoso que construiu a própria casa. O trabalhador da Base Aérea. O marido de tia Carmélia. O pai de João Bosco. O irmão de quem meu pai falava com admiração. O homem que construiu um barco e proporcionou momentos felizes à nossa família. E vejo também um pouco de mim, nas habilidades que talvez tenham atravessado nossa história familiar e chegado às minhas mãos.

E, claro, vejo o Fusca.

Porque existem pessoas que passam pela nossa vida deixando uma frase, um jeito, uma mania ou uma paixão tão marcante que se tornam inseparáveis da nossa lembrança delas.

Por isso, sempre que penso em tio Raimundo, consigo quase ouvi-lo novamente, indignado com minha provocação:

— Tu é doido? Esse carro não tem igual!

Hoje eu não provocaria.

Talvez apenas olhasse para ele, sorrisse e respondesse:

— É verdade, tio. Algumas coisas não têm igual. E algumas lembranças são mesmo para a vida toda.

Eugênio Oliveira
Blog Entre Linhas & Vivências

 

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