No início de agosto, pude participar de um congresso que visava estreitar as relações entre Finlândia e Brasil no que tange à temática da educação. O objetivo maior talvez fosse refletir formas de implantar práticas do modelo educacional finlandês na realidade brasileira. Entre as falas, tanto de brasileiros quanto de finlandeses, chamou-me a atenção a de Perttu Pölönen, que fez uma reflexão com base em seu livro Competências para o futuro (Bertrand Editora, 2023), com tradução apenas para o português lusitano.
A proposta de Pölönen basicamente reside na relevância de pensar um currículo para educação básica do futuro que desenvolva habilidades como a ética, a criatividade e o pensamento crítico, aspectos que nos diferem essencialmente das máquinas. Destaco a seguir um trecho da apresentação da obra que explica este aspecto:
Uma das questões-chave em relação às competências do futuro é no que diferem os humanos das máquinas. Quais são as diferenças fundamentais que fazem com que humanos e máquinas vejam os problemas de forma distinta? A resposta a esta questão determinará as competências que devíamos desenvolver, e qual o trabalho que apenas as pessoas conseguirão fazer no futuro.
Tendo a concordar com Pölönen, especialmente diante do intenso avanço das inteligências artificiais generativas no ambiente educacional. A título de ilustração, uma pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação, de setembro de 2025 — ou seja, há praticamente um ano — já demonstrava que 7 em cada 10 alunos de ensino médio admitiam usar ferramentas de inteligência artificial generativa para fazer os trabalhos escolares. O dado é alarmante e aponta para pelo menos dois aspectos: 1) os alunos não estão interessados em gastar energia na resolução de atividades; 2) as máquinas já dão conta, sozinhas, do que se pede nessas atividades. Assim sendo, o que resta ao ambiente escolar? A pesquisa parece apontar para uma inevitável transformação do que entendemos por educação básica.
Talvez esse choque seja o que precisemos para reavaliar o currículo escolar como um todo, que, no Brasil, a meu ver, é inflado e excessivamente conteudista. E o conteúdo não para de aumentar: a recente implantação da chamada “BNCC Computação” prevê, para alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental, por exemplo, o desenvolvimento da habilidade de elaborar algoritmos usando linguagem de programação (ver EF69CO02), isto é, mais uma camada de conteúdo somada a um currículo que já é extenso.
Não é de hoje que os professores ouvem dos alunos que determinados conteúdos escolares jamais serão retomados em suas vidas práticas, e é verdade. Não que os conteúdos sempre precisem encontrar uma aplicação prática para que se justifique ensiná-los, mas é certo que há conteúdos demais a serem estudados.
Para completar esse quadro, em 2024 uma pesquisa do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) atestou que apenas 35% dos brasileiros têm um nível consolidado de alfabetização. Os outros 65% se distribuem entre o nível de analfabeto funcional e o de alfabetizado em nível elementar — ou seja, são incapazes de elaborar textos de maior complexidade a partir de um contexto dado, de opinar sobre o posicionamento ou o estilo do autor de um texto, ou, no âmbito da matemática, de interpretar tabelas e gráficos com mais de duas variáveis e compreender a representação de informação quantitativa.
Diante desse cenário, se quase dois terços da população não conseguem interpretar criticamente um texto ou um gráfico, penso que o caminho não seja acrescentar mais uma habilidade ao currículo, mas primeiro garantir, de fato, o domínio das habilidades mais básicas de leitura, escrita e raciocínio matemático, hoje comprometidas para a maioria dos brasileiros. É esse alicerce que sustenta qualquer competência mais complexa que se queira desenvolver depois.
Mas, uma vez assegurada essa base, talvez seja mesmo relevante ir em busca do desenvolvimento de competências relacionadas a fatores como a “compreensão contextual, consciência situacional e interpretação relacionada com cultura, história ou normas sociais”, pensadas por Pölönen para o currículo do futuro. São fatores que nenhuma IA será capaz de reproduzir, porque lhes falta aquilo que em nós é abundante: a humanidade.
Rafael Oliveira.
Colunista do Blog Entre Linhas & Vivências




