Uma Foto, Uma Tia e um Amor que Ficou

Nasci em 1962. Naquele tempo, uma fotografia de criança não era algo tão comum quanto é hoje. Não existiam celulares registrando cada aniversário, cada passeio, cada brincadeira ou simplesmente uma tarde qualquer dentro de casa. Fotografar custava dinheiro, exigia filme, revelação e uma realidade financeira que nem sempre permitia transformar momentos cotidianos em imagens para guardar. Pelo menos na realidade que conheci, as coisas eram mais difíceis e o acesso a muitos bens que hoje consideramos simples era bastante limitado.

Talvez por isso uma ausência tenha me acompanhado durante muitos anos: eu acreditava não possuir nenhuma fotografia de quando era criança.

Pode parecer uma coisa pequena. Afinal, eu tive minha infância, minhas lembranças e minha família. Uma fotografia não muda aquilo que vivemos. Mas existe alguma coisa especial em olhar para uma imagem antiga e encontrar ali uma versão de nós mesmos que já não existe fisicamente. É como se pudéssemos, por alguns segundos, atravessar o tempo e olhar nos olhos daquela criança que um dia fomos.

Eu não podia fazer isso.

Ou, pelo menos, acreditava que não podia.

Há algum tempo, estava na casa da minha mãe fazendo uma visita quando a campainha tocou. Eram duas tias minhas, Alzanira e Alzimar, que também chegavam para visitá-la. Sentamos e começamos a conversar. Como costuma acontecer quando pessoas de uma mesma família se encontram depois de tantos anos de histórias compartilhadas, o presente logo abriu espaço para o passado. Uma lembrança puxava outra, nomes reapareciam, acontecimentos eram reconstruídos e, por alguns instantes, parecia que pessoas e situações distantes voltavam a ocupar aquela sala.

Entre minhas tias, sempre tive um carinho muito especial por tia Alzimar.

Não sei explicar exatamente a razão.

Ela nunca chegou para mim e disse que gostava de mim mais do que dos outros sobrinhos. Talvez nem gostasse. Talvez tratasse todos com o mesmo carinho. Mas algumas relações não precisam ser explicadas ou declaradas. A gente simplesmente sente.

E eu sentia.

Tia Alzimar era uma pessoa simpática, amorosa, de um jeito acolhedor. Sempre percebi em sua maneira de me tratar uma atenção que chegava ao coração. Era aquele tipo de sentimento que não precisa de grandes demonstrações. Estava no jeito de falar, de olhar, de receber.

Ela ficou viúva muito cedo e criou seus dois filhos, meu primo Paulo Sérgio e minha prima Claudinha. Curiosamente, encontro em Claudinha algo muito parecido com aquilo que sempre percebi em sua mãe: a fala mansa, a atenção, a delicadeza no trato com as pessoas. Há heranças que não aparecem em documentos nem em inventários. Passam de uma geração para outra através da maneira de viver.

Naquela conversa na casa da minha mãe, em determinado momento começamos a falar sobre fotografias antigas.

Foi quando comentei:

— Eu não tenho uma foto de criança. Fico triste por isso.

Tia Alzimar imediatamente respondeu algo que me surpreendeu:

— Meu filho, eu tenho.

Ainda consigo imaginá-la dizendo essas palavras.

Ela contou que possuía, guardada em um álbum na casa dela, uma fotografia minha quando criança.

Fiquei pasmo.

Como poderia?

Minha mãe não tinha aquela fotografia. Eu passei tantos anos acreditando que ela simplesmente não existia. E justamente tia Alzimar, aquela tia por quem eu carregava um carinho que nunca soube explicar, havia conservado uma imagem da minha infância durante todos aqueles anos.

A vida tem dessas coisas.

Às vezes procuramos determinadas respostas nos lugares mais óbvios e descobrimos, muito tempo depois, que aquilo que desejávamos estava guardado onde jamais imaginaríamos.

Tia Alzimar então prometeu:

— Na próxima vez que eu vier visitar sua mãe, eu trago a foto para você.

E trouxe.

Um dia, aquela fotografia atravessou décadas e finalmente chegou às minhas mãos.

Imagino quantas mudanças aconteceram no mundo enquanto ela permanecia dentro daquele álbum. Quantas casas, acontecimentos, alegrias, tristezas, nascimentos e despedidas fizeram parte da nossa família durante todo aquele tempo. Eu cresci, tornei-me adulto, trabalhei, construí minha família, tive filhos, vieram os netos, envelheci. E aquela criança continuava ali, imóvel, esperando dentro de uma fotografia.

Quando finalmente pude olhar para ela, não estava vendo apenas meu rosto de menino.

Estava recuperando um pedaço da minha própria história.

Mas hoje percebo que a fotografia ganhou um significado ainda maior porque foi tia Alzimar quem a guardou.

Talvez, se aquela mesma foto tivesse permanecido durante todos esses anos em uma gaveta da minha própria casa, eu gostasse dela, naturalmente. Mas provavelmente não teria a mesma história para contar. O fato de ter sido preservada justamente por alguém que ocupava um lugar tão especial em meu coração transformou aquela imagem em algo muito maior do que um simples registro da infância.

Às vezes me pergunto de onde surgem determinadas ligações entre as pessoas.

Por que algumas pessoas entram em nossa vida e despertam imediatamente uma afeição diferente? Por que, dentro de uma família grande, sentimos uma proximidade especial com alguém sem conseguirmos apontar exatamente quando aquilo começou?

Não tenho resposta.

Em alguns momentos cheguei até a pensar: será que, em outra vida, tia Alzimar já foi minha mãe?

É apenas uma pergunta que o coração faz diante daquilo que a razão não consegue explicar. Minha fé me ensina a entregar a Deus os mistérios que não compreendo. Talvez não seja necessário descobrir de onde vinha aquele carinho. Talvez seja suficiente reconhecer que ele existiu.

E existiu de verdade.

Quando tia Alzimar morreu, fui ao seu enterro.

Em determinado momento fiquei olhando para ela e pensei:

“A tia está linda.”

Sua expressão parecia tranquila. Havia nela uma aparência tão serena que, por alguns segundos, parecia ainda estar viva.

E, de certa maneira, estava.

Porque existem pessoas que morrem biologicamente, mas permanecem ocupando um lugar tão vivo dentro de nós que a palavra ausência nunca consegue explicar completamente o que aconteceu.

O próprio enterro de tia Alzimar tinha algo diferente.

Não me lembro de ter participado de outro daquela maneira. Apesar da tristeza natural da despedida, havia uma atmosfera que não parecia dominada apenas pelo sofrimento. As pessoas estavam reunidas, lembrando dela, e em determinado momento ouvi uma música alegre tocando.

Aquilo me chamou a atenção.

Procurei de onde vinha o som e percebi uma pequena caixa no chão. Perguntei à Amanda, neta de tia Alzimar, o que era aquilo.

Foi então que descobri mais uma coisa sobre minha tia.

Ela havia pedido que, quando morresse, colocassem música alegre em seu velório.

Era um desejo dela.

Assim como também havia pedido que a arrumassem, que fizessem sua maquiagem, colocassem batom e a deixassem bonita para sua despedida.

Quando soube disso, tudo pareceu combinar perfeitamente com a mulher de quem eu me lembrava.

Até na hora de partir, tia Alzimar deixou uma orientação para que a tristeza não ocupasse todo o espaço.

Era como se dissesse:

“Eu fui embora, mas não façam da minha partida apenas tristeza.”

Talvez por isso eu tenha olhado para ela naquele momento e pensado que estava linda. Ela estava se despedindo do mundo do jeito que queria: arrumada, cercada pelas pessoas que a amavam e com música.

Hoje, quando penso naquela fotografia da minha infância, percebo que ela representa muito mais do que a imagem de um menino.

Ela representa o tempo.

Representa a família.

Representa aquelas pessoas que passam pela nossa vida e deixam marcas que somente compreendemos completamente quando os anos avançam.

E representa principalmente tia Alzimar.

A mulher que, sem saber, guardou durante décadas uma pequena parte da minha história para um dia devolvê-la a mim.

Talvez a fotografia estivesse esperando o momento certo.

Talvez eu também estivesse.

Hoje tenho aquela imagem da criança que pensei nunca poder conhecer através de uma fotografia. Posso olhar para aquele menino e imaginar seus sonhos, suas brincadeiras e tudo aquilo que ainda aconteceria em sua vida.

Mas, quando olho para a foto, existe outra imagem que não aparece impressa no papel.

Vejo tia Alzimar.

Vejo seu jeito carinhoso.

Escuto quase perfeitamente sua voz dizendo:

“Meu filho, eu tenho uma foto sua.”

E talvez esteja aí uma das coisas mais bonitas da memória: uma fotografia consegue registrar um rosto, mas são os sentimentos que registram uma vida.

Minha tia se foi.

A fotografia ficou.

Mas o carinho que sinto por ela não ficou preso naquele passado. Continua comigo.

Há pessoas que Deus coloca em nosso caminho por um tempo. Depois elas partem, e nós continuamos sem compreender inteiramente por que aquela ligação foi tão especial.

Talvez não precisemos compreender.

Alguns afetos não foram feitos para serem explicados.

Foram feitos para serem sentidos.

Tia Alzimar partiu, mas continua viva em minhas lembranças. E aquela fotografia que ela guardou durante tantos anos hoje me lembra que, algumas vezes, o tempo não leva as coisas embora.

O tempo também guarda.

Eugênio Oliveira
Blog Entre Linhas & Vivências

Lumi, usaremos esse título para a matéria que ficou excelente: Uma

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