As festas juninas sempre ocuparam um lugar especial no coração do povo nordestino. Mais do que simples eventos festivos, elas representam um encontro entre fé, cultura popular, tradição e identidade regional. Para quem nasceu e cresceu no Ceará, como este cronista, o mês de junho sempre trouxe lembranças que vão muito além das bandeirinhas coloridas e do cheiro de milho assado. São memórias de uma época em que o São João era vivido de forma mais simples, mas talvez mais autêntica.
Há quarenta anos, as festas juninas tinham outro ritmo. As ruas dos bairros eram enfeitadas pelos próprios moradores. As famílias se reuniam para montar fogueiras, preparar pamonha, canjica, bolo de milho e pé de moleque. As crianças aguardavam ansiosamente a noite de São João para soltar traques, estrelinhas e outros fogos que hoje praticamente desapareceram do cenário urbano.
Mas o que mais marcava aquelas noites era a música.
Os acordes da sanfona ecoavam pelas ruas ao som de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Marinês e tantos outros mestres que transformaram o forró pé de serra em patrimônio cultural do Nordeste. O xote, o baião e o arrasta-pé embalavam casais, famílias e quadrilhas improvisadas nos terreiros das casas.
Hoje, muita coisa mudou.
As festas cresceram, tornaram-se grandes espetáculos, movimentam milhões de reais e atraem turistas de todo o Brasil. Em muitos aspectos, isso é positivo. Gera emprego, fortalece a economia local e projeta o Nordeste nacionalmente. No entanto, junto com o crescimento veio uma transformação cultural que provoca reflexões.
Em diversos arraiais, o espaço antes ocupado pela sanfona passou a ser dominado por artistas de gêneros musicais que pouco ou nada têm relação com as raízes juninas. O público, especialmente os mais jovens, muitas vezes prefere ouvir os sucessos do momento do que dançar um forró tradicional. O mercado acompanha essa tendência, e os organizadores acabam contratando atrações capazes de atrair multidões.
Chegamos ao ponto de ver, em alguns dos maiores festejos do país, apresentações que poderiam acontecer em qualquer época do ano, sem qualquer ligação com o espírito do São João. Em Campina Grande, na Paraíba, considerado por muitos o Maior São João do Mundo, até padres cantores já subiram aos palcos principais, numa demonstração de como a programação se diversificou ao longo do tempo.
Ainda assim, seria injusto afirmar que a tradição desapareceu completamente.
Campina Grande continua preservando espaços dedicados ao forró pé de serra, às quadrilhas e às manifestações culturais nordestinas. Na Paraíba, o São João permanece uma data quase sagrada. O dia 24 de junho é feriado em diversas cidades, e as famílias ainda mantêm o costume de reunir parentes e amigos em torno da fogueira.
Em Caruaru, Pernambuco, outra referência nacional quando o assunto é festa junina, a tradição também resiste. Mesmo com grandes shows e estruturas monumentais, as quadrilhas continuam sendo protagonistas e ajudam a manter viva a essência cultural dos festejos.
No Ceará, o São João de Maracanaú tornou-se um dos maiores eventos juninos do país. A cada ano, recebe milhares de visitantes e movimenta significativamente a economia local. Entre os grandes espetáculos e atrações nacionais, ainda encontramos espaços destinados às quadrilhas juninas, aos grupos folclóricos e ao forró tradicional, mostrando que é possível buscar um equilíbrio entre modernidade e preservação cultural.
Talvez o grande desafio das festas juninas contemporâneas seja justamente este: crescer sem perder a alma.
As novas gerações têm o direito de criar suas próprias formas de celebrar. A cultura é dinâmica e está sempre em transformação. Porém, quando esquecemos nossas raízes, corremos o risco de transformar uma manifestação cultural centenária em apenas mais um grande evento de entretenimento.
O Nordeste ensinou ao Brasil que o São João é mais do que festa. É memória afetiva. É identidade. É pertencimento. É o som da sanfona atravessando a noite enquanto a fogueira ilumina os rostos de quem se reúne para celebrar a vida.
Felizmente, apesar das mudanças, ainda existem quadrilhas encantando plateias, sanfoneiros emocionando multidões e famílias preservando tradições passadas de geração em geração.
E talvez seja justamente nisso que reside a esperança: o São João pode até mudar de roupa, aumentar de tamanho e ganhar novos palcos, mas enquanto houver uma sanfona tocando um velho xote em algum canto do Nordeste, a alma da festa continuará viva.
Por Eugênio Oliveira – Entre Linhas & Vivências




