Da Fome que Vi ao Brasil que Mudou: Uma Reflexão Sobre o Bolsa Família e a Transformação Social Brasileira

Por Eugênio Oliveira

Há textos que nascem dos livros. Outros, dos números. Este nasce da memória.

Quando olho para o Brasil de hoje e comparo com o que vi entre os meus 12 e 16 anos de idade, no Ceará das décadas de 1970 e 1980, percebo que muitos brasileiros mais jovens sequer conseguem imaginar a realidade que existia naquele tempo.

Eu vi a fome de perto.

Vi municípios inteiros mergulhados na extrema pobreza. Em muitas casas, a alimentação diária resumia-se a farinha, rapadura e, quando havia sorte, um pouco de feijão. Carne era luxo. Leite era privilégio. Frutas e verduras eram raridade para milhares de famílias do sertão.

Apenas alguns proprietários de fazendas e sítios conseguiam produzir o suficiente para garantir uma alimentação mais digna. O restante da população dependia da chuva, que frequentemente não vinha.

A seca não castigava apenas a terra.

Castigava as pessoas.

Presenciei retirantes caminhando quilômetros e quilômetros pelas estradas do Ceará em direção a Fortaleza. Famílias inteiras deixavam suas casas porque simplesmente não tinham mais o que comer.

Chegavam à capital com roupas rasgadas, crianças no colo, pés feridos e esperança quase nenhuma.

Vi homens e mulheres dormindo nas calçadas.

Vi mães pedindo esmolas para alimentar seus filhos.

Vi supermercados sendo saqueados por multidões desesperadas pela fome, exigindo a intervenção das forças policiais para conter o caos.

Era um Brasil profundamente desigual.

Um Brasil que convivia com a miséria extrema como se ela fosse algo natural.

O Surgimento de uma Nova Política Social

Foi nesse contexto histórico que surgiu o Bolsa Família, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Criado em 2003, o programa unificou iniciativas sociais já existentes e estabeleceu um modelo de transferência de renda condicionado à frequência escolar das crianças e ao acompanhamento da saúde das famílias.

Ao longo dos anos, o programa alcançou cerca de 50 milhões de brasileiros, tornando-se o maior programa de transferência condicionada de renda do mundo, segundo o Guinness World Records.

Mais do que distribuir recursos financeiros, o Bolsa Família ajudou milhões de pessoas a terem acesso à alimentação, educação e serviços básicos de saúde.

Seu modelo passou a ser estudado internacionalmente e serviu de inspiração para programas semelhantes em diversos países.

Quando Até os Adversários Reconhecem

Um dos aspectos mais interessantes da história do Bolsa Família é que seus resultados ultrapassaram as disputas ideológicas.

Em 2021, o economista Paulo Guedes, ministro da Economia do governo Bolsonaro, afirmou publicamente:

“O PT teve realmente a belíssima iniciativa de fazer um programa de transferência de renda importante. Ganhou quatro eleições seguidas merecidamente porque fez a transferência de renda para os mais frágeis. Um bom programa, que envolvia poucos recursos e que tinha altíssimo impacto social.”

Não se trata de uma declaração de um aliado político do presidente Lula, mas de alguém que ocupou o principal cargo econômico de um governo adversário.

Quando até os críticos reconhecem os méritos de uma política pública, isso merece atenção.

Minha Opinião

Esta é uma reflexão pessoal.

Na minha visão, o Bolsa Família representa a maior transformação econômica e social já promovida no Brasil para as camadas mais pobres da população.

Quem não viveu o Brasil da fome generalizada talvez tenha dificuldade em compreender a dimensão dessa mudança.

Eu vivi.

Eu vi.

Por isso, quando escuto alguém dizer que o programa foi apenas uma medida eleitoral, confesso que tenho dificuldade em concordar.

Nenhum programa social permanece por mais de duas décadas, atravessa diferentes governos, recebe reconhecimento internacional, inspira outros países e alcança dezenas de milhões de pessoas apenas por interesses eleitorais.

Os números e os resultados falam por si.

O programa ajudou a reduzir a pobreza extrema, contribuiu para melhorar indicadores sociais e foi uma das políticas frequentemente associadas aos avanços que levaram o Brasil a sair do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas em determinados períodos históricos. Diversos estudos também apontam impactos positivos sobre educação, vacinação infantil e redução das desigualdades.

O Brasil Que Eu Vi e o Brasil Que Vejo

O Brasil continua tendo enormes desafios.

Ainda existe pobreza.

Ainda existe desigualdade.

Ainda existem brasileiros passando necessidades.

Mas o país que vejo hoje é muito diferente daquele que conheci na minha juventude.

Hoje encontramos supermercados em praticamente todas as cidades.

Programas sociais chegam aos municípios mais distantes.

Milhões de crianças permanecem na escola graças às condicionalidades do programa.

Famílias que antes viviam na absoluta invisibilidade passaram a fazer parte das estatísticas, das políticas públicas e da agenda nacional.

Nada disso resolve todos os problemas do Brasil.

Mas negar a transformação ocorrida seria negar a realidade.

Uma Lição Para o Futuro

A grande lição que fica é que combater a pobreza não deve ser uma bandeira de direita, esquerda ou centro.

Deve ser uma causa nacional.

Nenhuma nação se torna verdadeiramente desenvolvida enquanto milhões de seus cidadãos convivem com a fome.

Eu vi o Brasil da escassez.

Vi o Brasil dos retirantes.

Vi o Brasil da fome.

E também vi o Brasil começar a mudar.

Por isso, ao olhar para trás e comparar aquelas imagens da minha juventude com a realidade atual, concluo que poucas políticas públicas tiveram impacto tão profundo na vida dos brasileiros quanto o Bolsa Família.

A história registrará seus erros e seus acertos.

Mas dificilmente poderá negar a transformação social que ele ajudou a construir.

Compartilhe isso:

Relacionado:

COLUNISTAS:

Parceiros:

Siga o Blog nas Redes Sociais:

Aqui você encontra o que procura: