O SÃO JOÃO MORREU?

Sou de uma geração que viu muita coisa acontecer. Nos últimos 50 anos, é inegável a revolução ocorrida no convívio social. Na minha infância, a brincadeira era na rua, com os vizinhos. Até hoje não sei como as informações fluíam tão bem numa época em que os principais meios de comunicação eram a TV aberta, o jornal impresso e o famoso boca a boca.

Havia a época da brincadeira com bolas de gude, pião, baleado e tantas outras. Não existia nada dessa tecnologia tão comum nos dias de hoje. Tínhamos mais tempo para pensar, e o principal meio de aprendizado eram os velhos e bons livros. Nos trabalhos escolares, as pesquisas eram feitas nas enciclopédias, sendo a mais famosa a Delta Larousse. A esta altura, o leitor pode estar se perguntando: cadê o São João que dá título a este artigo?

Pois bem, talvez seja justamente essa pressa dos tempos atuais, essa ânsia de chegar rapidamente à informação que aparentemente nos interessa, que nos faça deixar de compreender os processos das mudanças sociais, incluindo a necessária contextualização, que, num primeiro momento, pode parecer desnecessária. Dito isso, recomendo fortemente uma desaceleração nessa busca por informações rasas. Quando se vai diretamente ao ponto, sem compreender o processo, a informação fica tão resumida que se perde justamente o famoso fio da meada.

Mas vamos deixar de enrolação, rss, e vamos ao São João.

Quando criança, nos anos 70, como contextualizei no início deste artigo, não havia muitas opções que nos tirassem o foco de certas épocas do ano. Ficávamos contando nos dedos para que elas chegassem. Destaco três dessas principais épocas, que reuniam amigos e familiares: Carnaval, São João e Natal. Porém, para nós, nordestinos, o São João sempre teve um sabor especial. Muitas famílias que moravam na capital, João Pessoa, tinham origem em cidades do interior. Essa conexão acontecia de maneira natural. Era comum as famílias viajarem em peso para o interior para brincar o São João. Era quase uma obrigação afetiva, pois também era uma oportunidade de visitar familiares e, muitas vezes, retornar à cidade natal.

O tempo foi passando e, a cada década, a transformação social avançava a passos largos, principalmente em termos de tecnologia. Isso foi retirando da sociedade o foco em algumas atividades, como, por exemplo, as crianças brincarem na rua com a vizinhança. Uma das principais mudanças foi a verticalização das cidades, que aos poucos foi suprimindo as casas dos bairros mais cobiçados e já estruturados, somada ao aumento da insegurança.

Aqui na Paraíba, recordo que as cidades mais tradicionais no São João eram Campina Grande, Santa Luzia e Bananeiras. Na minha infância e adolescência, os shows eram exclusivamente voltados ao nosso autêntico forró. Depois veio aquilo que foi batizado de “forró de plástico”, um tipo de forró considerado excessivamente comercial, padronizado e distante das raízes do gênero. Até aí, éramos felizes e não sabíamos.

A festa, que antes era comemorada em poucos dias, no máximo em uma semana, foi se alongando em algumas cidades. Campina Grande, por exemplo, que ostenta o título de Maior São João do Mundo, passou a realizar um mês inteiro de festas.

Acredito que, com esse tempo excessivo, aliado a uma transformação musical que vem sendo imposta no país, sobretudo pela força comercial do ritmo sertanejo, o São João tradicional deixou de existir. Essa transformação foi se intensificando de tal maneira que, hoje, o palco está aberto para todos os ritmos e artistas. Ao meu ver, isso alimenta uma imensa falta de pertencimento.

Infelizmente, parte dessa culpa é das próprias pessoas, que aceitam tudo sem questionar. Eu, particularmente, acho que essas festas já não deveriam mais ser chamadas de São João. Que se coloque outro nome, pois isso não mais nos representa. Os nossos verdadeiros artistas, a cada ano, perdem mais espaço para esses invasores da nossa cultura.

Na minha humilde opinião, isso seria resolvido se o São João fosse realizado em, no máximo, uma semana, e se fossem permitidas apenas apresentações dentro do nosso gênero forró. Mas o mundo não se comporta da maneira que pensamos e idealizamos. Por isso, eu, que pude viver e conviver com todas essas transformações, posso afirmar: mudou para pior.

Sei que muitos vão discordar da minha opinião, mas é o que sinto e é o que desejo deixar registrado neste meu escrito.

PS CARVALHO é engenheiro civil e artista da música da cidade de João Pessoa/PB.

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