O Ceará Antes e Depois do Governo das Mudanças de Tasso Jereissati

Há momentos na história de um povo em que o tempo parece dividir-se em duas partes: o antes e o depois.

Na minha visão, o Ceará viveu um desses momentos a partir de 1987.

Naquele ano, eu tinha apenas 25 anos e acompanhava, como milhares de cearenses, um Estado que carregava uma imagem muito diferente da que possui atualmente. O Ceará era frequentemente lembrado pelas grandes secas, pelas dificuldades econômicas, pela dependência dos recursos federais e por uma administração pública marcada pelo clientelismo e por estruturas políticas tradicionais.

Foi nesse cenário que surgiu um grupo que ficaria conhecido como Governo das Mudanças, liderado por Tasso Jereissati.

Mais do que uma simples troca de governador, iniciou-se uma nova forma de administrar o Estado.

Um novo jeito de governar

O primeiro desafio era reorganizar a máquina pública.

O governo implantou reformas administrativas, buscou equilibrar as contas estaduais, modernizou os sistemas de arrecadação, profissionalizou diversos setores da administração e procurou reduzir práticas patrimonialistas que durante muitos anos marcaram a política cearense. A proposta era transformar o Estado em uma instituição mais eficiente e preparada para investir no futuro.

Na época, falar em informatização do serviço público ainda era novidade.

Secretarias passaram por processos de modernização administrativa, técnicos ganharam maior espaço na gestão e o planejamento passou a ocupar posição central nas decisões governamentais.

Foi uma mudança cultural.

A chegada dos investimentos

Com maior equilíbrio fiscal, o Ceará passou a conquistar credibilidade junto a investidores nacionais e internacionais.

Vieram políticas de incentivo à industrialização, expansão do turismo e melhoria da infraestrutura.

Nos anos seguintes, importantes projetos estruturantes foram iniciados ou consolidados, entre eles o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, o novo Aeroporto Internacional de Fortaleza, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Açude Castanhão e diversos investimentos em recursos hídricos, transporte e desenvolvimento regional.

Outro programa marcante foi o Projeto São José, criado para fortalecer o desenvolvimento rural, ampliar o acesso à água, apoiar a agricultura familiar e melhorar as condições de vida das comunidades do interior. Três décadas depois, o programa continua ativo, demonstrando a importância de políticas públicas capazes de atravessar diferentes governos.

A continuidade do Governo das Mudanças e um pouco da historia de Ciro Gomes

Em 1991, o governo passou para Ciro Gomes.

Embora cada gestor tenha seu estilo próprio, houve continuidade administrativa em diversas áreas.

Foram mantidas as políticas de equilíbrio fiscal, atração de investimentos e planejamento estratégico, preservando o modelo iniciado anos antes. Essa continuidade permitiu ao Estado manter estabilidade administrativa e ampliar projetos estruturantes.

Naquele período, o Ceará começou a ganhar destaque nacional pela capacidade de planejamento e pela qualidade de sua gestão pública.

Ciro Ferreira Gomes construiu uma das trajetórias políticas mais relevantes da história recente do Ceará. Formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi professor universitário e, em 1995, atuou como pesquisador visitante na Harvard Law School, aprofundando estudos na área jurídica e de políticas públicas. Iniciou sua carreira política como deputado estadual, foi eleito prefeito de Fortaleza em 1988 e, em seguida, governador do Ceará em 1990. Posteriormente, ocupou cargos de destaque no cenário nacional, sendo ministro da Fazenda no governo Itamar Franco e ministro da Integração Nacional, quando participou de importantes projetos de infraestrutura hídrica para o Nordeste, incluindo ações relacionadas à transposição do Rio São Francisco. Ao longo de sua carreira, consolidou-se como um dos políticos brasileiros mais conhecidos pelos debates sobre economia, desenvolvimento e gestão pública. Reconhecido por sua capacidade técnica, oratória e domínio de temas econômicos, Ciro Gomes tornou-se uma das figuras mais influentes da política nacional nas últimas décadas.

Mais tarde, outros governos dariam sequência a várias dessas políticas, demonstrando que projetos de Estado costumam produzir resultados mais consistentes do que projetos limitados a um único mandato.

Um Ceará diferente

Quem viveu o Ceará das décadas de 1970 e início dos anos 1980 percebe claramente as transformações ocorridas.

A economia tornou-se mais diversificada.

O turismo ganhou força.

A indústria expandiu sua participação.

O Estado passou a atrair empresas que antes dificilmente escolheriam o Nordeste como destino para novos investimentos.

A imagem do Ceará mudou dentro e fora do Brasil.

Naturalmente, nem todos os problemas desapareceram.

Ainda convivemos com desigualdades sociais, desafios na segurança pública, dificuldades na saúde, educação e infraestrutura em diversas regiões.

Nenhum governo resolve tudo.

Mas é difícil negar que aquele período marcou uma inflexão importante na história administrativa do Ceará.

O valor da continuidade

Talvez uma das maiores lições deixadas por aquele momento histórico seja a importância do planejamento de longo prazo.

Países e estados que alcançam elevados níveis de desenvolvimento normalmente não mudam completamente suas prioridades a cada eleição.

Eles preservam projetos estruturantes, independentemente das diferenças partidárias.

Obras importantes, reformas administrativas e investimentos em educação, infraestrutura e desenvolvimento econômico exigem continuidade.

Os frutos quase nunca aparecem em quatro anos.

Alguns levam uma década.

Outros, uma geração inteira.

A opinião de quem escreve

Como cearense, tenho orgulho de ter acompanhado esse importante capítulo da história do meu Estado.

Na minha percepção, o Ceará moderno começou a ser construído quando o planejamento passou a prevalecer sobre o improviso e quando a gestão pública passou a ser tratada como instrumento de desenvolvimento.

Não escrevo estas linhas para defender partidos ou pessoas.

Escrevo como alguém que viveu aquele período e testemunhou uma transformação que considero histórica.

Acredito que governos passam, mas boas ideias devem permanecer.

Quando um projeto público melhora a vida das pessoas, ele não pertence mais a um governante. Passa a pertencer ao povo.

Talvez esse seja o maior ensinamento da história recente do Ceará: o desenvolvimento acontece quando existe coragem para iniciar mudanças e maturidade para dar continuidade ao que realmente funciona.

Por Eugênio Oliveira.

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