Com o avanço da tecnologia e a consequente ampliação de seu uso por toda a sociedade, é natural que certos hábitos tendam a se tornar obsoletos. Por exemplo, a consulta a enciclopédias impressas, antes símbolo de status em muitas casas, há tempos foi superada por mecanismos de busca que respondem a qualquer pergunta de imediato. A correspondência escrita à mão, por sua vez, perdeu espaço para as mensagens instantâneas, nos ágeis aplicativos como o WhatsApp.
Os exemplos escolhidos não são fortuitos. Eles apontam para uma profunda mudança de nossa relação com os processos de leitura e escrita. Mas essas mudanças não ocorrem sem deixar marcas em nosso corpo.
Em 17 de maio de 2026, o programa Fantástico apresentou uma matéria que tratava das consequências da perda do hábito de escrita à mão. Segundo o estudo científico norueguês divulgado na reportagem, escrever à mão exige que o cérebro coordene simultaneamente diferentes regiões, já que a escrita de cada letra demanda um movimento distinto da mão. Digitar, por outro lado, envolve um gesto motor repetitivo, praticamente o mesmo para qualquer tecla pressionada, o que exige menos coordenação e resulta em uma ativação cerebral mais limitada.
Se a perda do hábito de escrever à mão já pode empobrecer certas conexões cerebrais, como sugere o estudo, é preciso perguntar o que acontecerá quando também delegarmos às Inteligências Artificiais Generativas parte do esforço de formular frases, organizar argumentos e sustentar o pensamento por conta própria.
Em razão disso, professores de diferentes lugares se inquietam com o futuro da educação. Não é por menos: a IA, e isso já é evidente, promove uma transformação ainda mais profunda na sociedade do que a chegada dos computadores e smartphones. O efeito nocivo do uso excessivo dessas tecnologias por crianças e adolescentes vem sendo tema de livros, congressos acadêmicos e documentos governamentais, o que tem suscitado iniciativas como as do Brasil e, mais recentemente, da França, voltadas a restringir o acesso de crianças às redes sociais.
É certo que, por ora, tudo é incerto. E, enquanto permanecemos no “O que será que será”, como na música de Chico, resta-nos levantar essas dúvidas e cultivar o desejo de uma vida um pouco menos tecnológica.
O título deste texto é uma referência ao ensaio do historiador de arte francês Henri Focillon (1881–1943) sobre o papel da mão no pensamento e na criação humana. Finalizo com o primeiro parágrafo desse ensaio, que, além de sintetizar a ideia do autor, nos lembra do que nos faz humanos: encarar a dureza do pensamento.
“Empreendo este elogio da mão como quem cumpre um dever de amizade. No momento em que começo a escrever, vejo minhas próprias mãos, que solicitam meu espírito, que o arrastam. Cá estão, companheiras incansáveis, que durante tantos anos vêm cumprindo sua tarefa, a primeira mantendo o papel no lugar, a outra multiplicando sobre a página branca estes pequenos signos apressados, sombrios e diligentes. Por meio delas, o homem trava contato com a dureza do pensamento. Elas lapidam o bloco. Impõem uma forma, um contorno e, no domínio mesmo da caligrafia, um estilo.”
FOCILLON, Henri. Elogio da mão (livro eletrônico). Tradução de Samuel Titan Jr. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2012. (Clássicos Serrote).
Sobre o autor
Rafael Lima de Oliveira é doutor e mestre em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC), onde também se graduou em Letras. Atualmente, é gerente editorial das Edições IPDH, além de atuar como autor, editor de livros didáticos e pesquisador em Linguística Textual, com especial interesse nos estudos da referenciação, da argumentação e da produção de textos.




