Algumas lições chegam cedo demais para que possamos compreendê-las. Ouvimos, guardamos em algum lugar da memória e seguimos a vida sem perceber que aquelas palavras continuam conosco. Décadas depois, quando o tempo já nos ensinou aquilo que a infância não conseguia entender, elas reaparecem. E então descobrimos que uma conversa aparentemente simples pode ter atravessado uma vida inteira.
Eu devia ter uns oito anos. Nasci em 1962, portanto essa lembrança me leva aproximadamente ao início da década de 1970, quando morávamos na Rua Tenente Benévolo. Vizinho à nossa casa vivia um casal já bastante idoso. Do homem ainda me recordo do nome: Loredo. Pelo que ficou em minha memória, era aposentado de guerra e carregava no nariz a sequela de um ferimento sofrido muitos anos antes. De sua esposa, infelizmente, o nome se perdeu com o tempo. Guardei, porém, uma lembrança muito mais importante do que o nome: a pequena história que, sem que ela soubesse, ajudaria a formar uma parte de quem eu me tornaria.
Naquele tempo, manter o piso de uma casa brilhando dava trabalho. Usava-se cera e depois vinha o escovão, grande e pesado, que precisava ser empurrado repetidas vezes pelo chão até que o piso ganhasse brilho. Lembro especialmente daquela cera avermelhada, dessas que faziam parte do cotidiano das casas de antigamente. Para uma criança de oito anos, conduzir aquele escovão não era exatamente uma tarefa leve.
A esposa de Loredo me conhecia e, de vez em quando, me chamava para ajudá-la. Queria que eu limpasse e encerasse a sala da casa. E havia uma promessa que tornava o convite imediatamente interessante aos ouvidos daquele menino: ao terminar, ela me daria um agrado.
Eu aceitava.
Pegava o escovão e começava o serviço com disposição. Passava a cera, empurrava aquele objeto pesado de um lado para o outro e fazia tudo com o cuidado que conseguia ter naquela idade. Talvez existisse ali, mesmo tão cedo, alguma coisa da relação que eu desenvolveria mais tarde com o trabalho: se era para fazer, queria fazer bem-feito. Quando terminava, olhava para a sala limpa, encerada e brilhando e sentia que tinha cumprido minha tarefa.
Então chegava o esperado momento do agrado.
A velhinha colocava em minha mão uma moedinha.
Era tão pouco que, segundo me recordo, dava apenas para comprar uma bala.
E aquilo começou a me incomodar.
Eu olhava para a moeda e depois pensava no tamanho da sala, no peso do escovão e no trabalho que havia acabado de realizar. Na matemática simples de uma criança, a conta não fechava: eu havia trabalhado muito para receber muito pouco.
Até que um dia fui reclamar com minha mãe.
— Mãe, é muito pouco. Eu encero aquela sala toda e ela só me dá essa moedinha.
Minha mãe poderia simplesmente ter concordado comigo. Poderia ter dito para eu não voltar mais ou que a senhora deveria me pagar melhor. Mas sua resposta seguiu por outro caminho.
Ela me explicou, com a simplicidade das grandes lições, que eu não deveria olhar apenas para o valor daquela moeda. Pediu que eu olhasse para o casal. Eram duas pessoas já idosas, que não tinham mais condições físicas de cuidar sozinhas daquela limpeza. Também não possuíam dinheiro suficiente para contratar alguém que fizesse regularmente o serviço.
O que para mim era apenas trabalho mal pago, para minha mãe também era uma forma de ajudar.
Naquele momento, porém, eu era apenas um menino.
Ouvi. Talvez tenha compreendido uma pequena parte. Mas não gostei muito da conclusão. Continuava achando a moedinha pequena demais e, sinceramente, já não tinha a mesma vontade de voltar a empurrar aquele escovão pesado pela sala.
Hoje compreendo minha mãe.
Foram necessários muitos anos para entender verdadeiramente o que ela tentou ensinar àquele menino. Curiosamente, aquela moedinha permaneceu em minha memória. Talvez porque tenha tocado em algo que me acompanharia durante a vida: a necessidade de sentir que o trabalho realizado é reconhecido de maneira justa.
Ao longo da minha trajetória profissional, houve momentos em que considerei que meu esforço, minha dedicação ou minha experiência valiam mais do que o reconhecimento que recebia. E algumas vezes aquela sensação antiga parecia retornar. Mudavam o trabalho, as responsabilidades e os valores, mas, em algum lugar dentro de mim, talvez ainda estivesse o menino olhando para a pequena moeda depois de ter deixado uma sala inteira brilhando.
Com o passar dos anos, entretanto, aprendi que existem duas verdades que não precisam ser inimigas. O trabalho deve ser valorizado e justamente remunerado. Reconhecer isso é respeitar o esforço, o conhecimento e o tempo de quem trabalha. Mas também existem momentos em que aquilo que fazemos ultrapassa qualquer cálculo financeiro. Há gestos cujo verdadeiro pagamento não cabe no bolso.
Hoje, já do outro lado do tempo, consigo enxergar também aquilo que meus olhos infantis não eram capazes de perceber: a velhice daquele casal. O escovão que era pesado para um menino de oito anos certamente seria muito mais pesado para aquelas mãos envelhecidas. A sala que eu conseguia deixar brilhando talvez representasse para eles algo que já não conseguiam fazer sozinhos.
Minha mãe percebeu tudo isso antes de mim.
Ela não estava tentando ensinar que o nosso trabalho não tem valor ou que devemos aceitar qualquer pagamento. Estava me apresentando a uma medida de valor muito mais difícil de compreender: nem tudo aquilo que vale a pena fazer precisa oferecer uma recompensa proporcional ao esforço. Às vezes, a recompensa está no bem que conseguimos proporcionar a alguém.
A moeda comprava apenas uma bala.
Mas a lição que veio junto com ela atravessou mais de meio século.
Loredo e sua esposa já se foram há muito tempo. A casa, a sala, a cera avermelhada e aquele escovão pesado pertencem a um mundo que praticamente desapareceu. Minha mãe talvez nem imaginasse que aquela conversa ficaria guardada durante tantos anos.
Mas ficou.
E hoje, quando penso naquele menino contrariado com sua pequena remuneração, tenho vontade de lhe dizer que ele não estava completamente errado. Seu trabalho tinha valor. Era natural desejar reconhecimento. Só havia uma parte da história que ele ainda não possuía idade suficiente para compreender.
Existem coisas que o dinheiro paga. Existem coisas que somente a gratidão explica. E existem lições cujo verdadeiro valor só descobrimos quando envelhecemos o bastante para finalmente entendê-las.
Eugênio Oliveira
Blog Entre Linhas & Vivências




