FRUSTRAÇÃO POPULAR: PIB subiu, desemprego caiu, então por que o seu bolso continua vazio?

Por Maria José Cândido da Silva
Economista | Graduada em Ciências Econômicas pela Faculdade Estadual de Ciências Econômicas de Apucarana (1984) | Pós-Graduada em Marketing | Atua na área de Economia, com ênfase em Economia dos Recursos Humanos.

Todos os dias, os telejornais anunciam uma sequência de boas notícias sobre a economia brasileira.

“O PIB cresceu.”

“O desemprego caiu.”

“A atividade econômica avançou.”

“As contas públicas melhoraram.”

“O Banco Central divulgou números positivos.”

Quem acompanha essas notícias poderia imaginar que a vida da população está muito melhor. Mas basta entrar em um supermercado para perceber uma realidade completamente diferente.

A contradição é evidente.

Enquanto os indicadores econômicos apontam para uma recuperação da economia, milhões de brasileiros continuam fazendo malabarismos para pagar as contas do mês. A cena é conhecida: diante das prateleiras, muitas famílias colocam um produto no carrinho e retiram outro para que a conta caiba no orçamento. Não se trata apenas de economizar; trata-se de escolher do que abrir mão.

É justamente essa distância entre os números e a realidade que provoca um sentimento compartilhado por muitos brasileiros: afinal, se a economia está melhorando, por que o dinheiro continua faltando?

A resposta é mais simples do que parece.

Os números não estão errados

Antes de qualquer crítica, é importante reconhecer um fato: os indicadores divulgados pelos órgãos oficiais realmente mostram uma melhora em diversos aspectos da economia.

Instituições como o Banco Central do Brasil, o IBGE, a Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), o IPEA e outros centros de pesquisa acompanham permanentemente o desempenho econômico do país.

Entre os indicadores mais observados estão:

  • crescimento do Produto Interno Bruto (PIB);
  • redução da taxa de desemprego;
  • aumento da população ocupada;
  • crescimento da atividade econômica;
  • expansão de investimentos em alguns setores;
  • estabilidade do sistema financeiro.

Esses números são calculados com metodologias técnicas reconhecidas internacionalmente. Ou seja, não são “inventados”. Eles retratam uma parte importante da realidade econômica.

O problema é outro.

O PIB cresce… mas demora para chegar ao seu bolso

O PIB — Produto Interno Bruto — mede tudo aquilo que o país produziu em bens e serviços durante determinado período.

Quando o PIB cresce, significa que a economia está produzindo mais riqueza.

Mas isso não significa que essa riqueza será distribuída imediatamente entre toda a população.

Na prática, existe um intervalo entre o crescimento da economia e a melhora da renda das famílias.

É como encher uma caixa d’água.

Primeiro ela começa a receber água.

Depois vai enchendo lentamente.

Somente quando alcança determinado nível é que a água chega às torneiras da casa.

Com a economia acontece algo parecido.

Os economistas chamam isso de transmissão dos efeitos do crescimento econômico.

Nem sempre ela acontece rapidamente.

O crescimento nem sempre beneficia todos os setores

Outro ponto pouco explicado é que o crescimento do PIB pode ser impulsionado por segmentos muito específicos.

Imagine que a produção agrícola tenha uma safra excepcional.

Ou que as exportações de soja, milho e carnes aumentem significativamente.

Ou ainda que o Brasil registre forte expansão na produção de petróleo.

Tudo isso faz o PIB crescer.

Mas isso não significa que o caixa do pequeno comerciante do bairro aumentou na mesma velocidade.

Também não significa que o salário do trabalhador recebeu um reajuste proporcional.

Em muitos momentos, o crescimento econômico é puxado por setores como:

  • agronegócio exportador;
  • mineração;
  • petróleo e gás;
  • grandes investimentos em infraestrutura;
  • exportações de commodities.

Esses setores movimentam bilhões de reais e aumentam o PIB nacional, mas seus efeitos sobre a renda das famílias costumam ocorrer de forma gradual.

A inflação deixa cicatrizes

Existe ainda um fator que pesa bastante no orçamento das famílias.

A inflação.

Mesmo quando ela diminui, os preços normalmente não voltam ao patamar anterior.

É importante compreender essa diferença.

Inflação menor não significa preços menores.

Significa apenas que eles continuam subindo em ritmo mais lento.

Quem comprava um carrinho de supermercado por R$ 400 e hoje paga R$ 650 dificilmente verá esse valor retornar aos R$ 400.

Essa perda acumulada do poder de compra permanece por muito tempo.

É como uma cicatriz econômica.

Ela continua presente mesmo depois que a inflação perde força.

Por isso tantas famílias têm a sensação de que “o dinheiro encolheu”.

Na verdade, foi o poder de compra que diminuiu.

O emprego voltou… mas nem sempre com a mesma renda

Outro aspecto importante envolve o mercado de trabalho.

A taxa de desemprego realmente caiu nos últimos anos.

Isso é uma boa notícia.

Entretanto, boa parte dos novos postos de trabalho possui remuneração menor que a esperada ou está concentrada em ocupações informais, temporárias ou de menor produtividade.

Além disso, muitos trabalhadores passaram anos desempregados durante períodos de crise.

Nesse intervalo, consumiram reservas financeiras, venderam patrimônio, recorreram ao crédito e acumularam dívidas.

Mesmo voltando ao mercado de trabalho, agora precisam reconstruir toda sua vida financeira.

Isso leva tempo.

O crédito também pesa

Outro fator que explica a sensação de aperto financeiro é o elevado endividamento das famílias.

Boa parte da renda mensal está comprometida com:

  • cartão de crédito;
  • financiamentos;
  • empréstimos;
  • cheque especial;
  • parcelamentos.

Quando uma parcela significativa do salário já nasce comprometida, sobra pouco dinheiro para alimentação, lazer ou investimentos pessoais.

Assim, mesmo com crescimento econômico, a percepção cotidiana continua sendo de dificuldade.

Por que a televisão fala em melhora e a população não sente?

Porque televisão e institutos econômicos analisam indicadores nacionais.

As famílias analisam a própria carteira.

São perspectivas diferentes.

O economista observa médias.

O consumidor observa seu extrato bancário.

As duas análises podem estar corretas ao mesmo tempo.

A economia pode estar crescendo enquanto milhares de famílias ainda enfrentam dificuldades para reorganizar suas finanças.

Não existe contradição.

Existe diferença de tempo.

O que pode ser feito?

Embora parte da solução dependa das políticas públicas e do ambiente econômico, algumas atitudes individuais ajudam a reduzir o impacto desse período de transição.

Entre elas:

  • controlar rigorosamente os gastos mensais;
  • evitar novas dívidas de alto custo;
  • renegociar financiamentos quando possível;
  • investir em qualificação profissional para aumentar a renda;
  • criar uma pequena reserva financeira, mesmo que com valores modestos;
  • comparar preços antes das compras e evitar decisões impulsivas.

Pequenas mudanças repetidas ao longo do tempo produzem resultados importantes.

Entre os números e a realidade

A economia é feita de gráficos, índices e estatísticas.

Mas também é feita de pessoas.

O crescimento do PIB é importante.

A redução do desemprego é importante.

A estabilidade econômica também é importante.

Entretanto, o verdadeiro sucesso de uma economia acontece quando esses indicadores deixam de ser apenas manchetes e passam a ser percebidos na mesa das famílias, no carrinho do supermercado, na tranquilidade de pagar as contas em dia e na possibilidade de sonhar novamente.

Enquanto isso não acontece de forma ampla, continuará existindo a sensação de que há duas economias convivendo no mesmo país.

A economia dos relatórios, que celebra bons resultados.

E a economia da cozinha de casa, onde cada real ainda precisa ser cuidadosamente calculado antes de chegar ao caixa do supermercado.

Essa talvez seja a maior explicação para a frustração popular: os indicadores mostram um país que melhora, mas milhões de brasileiros ainda aguardam o momento em que essa melhora finalmente chegue ao próprio bolso.

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