Durante muito tempo, aprendemos a medir o sucesso de um país por números: crescimento do Produto Interno Bruto, inflação, investimentos, produção industrial, exportações, arrecadação, equilíbrio das contas públicas. Todos esses indicadores são importantes e ajudam a compreender a saúde de uma economia. Mas existe uma pergunta que deveria acompanhar cada percentual divulgado e cada comemoração em torno do crescimento: crescer para quem? Porque uma economia pode avançar nas estatísticas sem que esse avanço chegue, na mesma intensidade, à mesa, ao emprego, à escola, à moradia e às oportunidades de milhões de pessoas.
O Brasil chega a 2026 diante justamente desse desafio. A economia mostrou capacidade de resistência nos últimos anos. Segundo o Banco Mundial, o país registrou crescimento médio superior a 3% nos três anos anteriores, sustentado, entre outros fatores, pelo consumo das famílias, pelos serviços, pela agropecuária e pelas transferências sociais. O Banco Central, por sua vez, informou que o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 e elevou sua projeção de crescimento para o ano para 2,0%. Ao mesmo tempo, reconhece que esse ritmo seria inferior ao observado nos anos anteriores.
Há sinais positivos também no mercado de trabalho. Dados do Novo Caged mostram que o Brasil acumulou 767.326 novos empregos formais entre janeiro e maio de 2026, alcançando quase 47,9 milhões de vínculos com carteira assinada. O Banco Central também descreveu o mercado de trabalho como aquecido, com desemprego em nível historicamente baixo e aumento dos salários. São resultados relevantes porque emprego e renda representam uma das formas mais consistentes de transformar crescimento econômico em melhoria social.
Mas nenhum desses resultados elimina os problemas estruturais brasileiros. Continuamos diante de uma economia que precisa aumentar sua produtividade, investir mais em infraestrutura, melhorar a qualidade da educação, estimular inovação, ampliar a competitividade e criar um ambiente capaz de transformar crescimento episódico em desenvolvimento duradouro. O Banco Mundial aponta justamente produtividade, educação, infraestrutura, ambiente de negócios, inovação e sustentabilidade fiscal entre os desafios para o crescimento brasileiro de longo prazo.
É nesse ponto que surge uma falsa escolha que o Brasil precisa superar: a ideia de que o país deve optar entre crescer economicamente ou proteger socialmente sua população. Não deveria existir essa oposição. Uma política social que apenas administra permanentemente a pobreza, sem criar caminhos para educação, qualificação, emprego e autonomia, será insuficiente. Da mesma maneira, um crescimento que concentra oportunidades e deixa milhões de brasileiros à margem também não pode ser considerado desenvolvimento pleno.
Os programas de transferência de renda têm importância evidente em um país tão desigual. Em junho de 2026, aproximadamente 19,3 milhões de famílias recebiam o Bolsa Família, com benefício médio de R$ 676,33. O próprio desenho do programa procura não apenas garantir renda às famílias em situação de pobreza, mas articular políticas públicas e favorecer a superação das condições de vulnerabilidade.
O desafio, portanto, não deveria ser simplesmente discutir se o Estado deve ou não proteger quem precisa. Uma sociedade civilizada precisa oferecer proteção aos vulneráveis. A questão mais profunda é como transformar proteção em oportunidade. O verdadeiro sucesso de uma política social talvez possa ser medido pelo número de pessoas que, depois de receberem apoio em determinado momento da vida, encontram condições para caminhar com maior autonomia. Para isso, assistência precisa encontrar educação; educação precisa encontrar qualificação; qualificação precisa encontrar emprego; emprego precisa proporcionar renda digna; e crescimento econômico precisa produzir oportunidades.
Ao mesmo tempo, não existe política social sustentável sem uma economia capaz de financiá-la. O Estado não produz riqueza por decreto. Os recursos destinados à saúde, educação, infraestrutura, previdência e programas de transferência de renda dependem, direta ou indiretamente, de uma economia que produza, invista, gere empregos e arrecadação. É por isso que responsabilidade social e responsabilidade fiscal não deveriam ocupar lados opostos de uma disputa ideológica. Uma depende da outra.
As próprias contas públicas mostram a complexidade dessa equação. O governo trabalha com uma trajetória de consolidação fiscal e prevê melhora gradual dos resultados primários nos próximos anos, enquanto a dívida pública permanece como uma preocupação relevante. O Banco Mundial também chama atenção para a rigidez orçamentária e para as pressões que o envelhecimento da população poderá exercer sobre as finanças públicas.
Isso significa que gastar melhor será tão importante quanto arrecadar. O Brasil precisa conseguir preservar aquilo que protege a população mais vulnerável e, simultaneamente, abrir espaço para investimentos capazes de elevar a capacidade produtiva do país. Estradas, saneamento, habitação, educação, ciência, tecnologia, infraestrutura digital e logística não são despesas desconectadas da questão social. Quando bem planejados, são instrumentos de desenvolvimento, geração de emprego e redução das desigualdades. O Novo PAC, por exemplo, reúne investimentos previstos em infraestrutura, habitação, saneamento, saúde, educação e mobilidade com o objetivo declarado de combinar crescimento, emprego, renda e inclusão social.
Também precisamos abandonar a ideia de que crescimento é responsabilidade exclusiva do governo. Quem produz, empreende, trabalha, pesquisa, ensina, investe e inova participa da construção da riqueza nacional. Cabe ao poder público criar condições para que essa energia produza resultados: segurança jurídica, estabilidade econômica, infraestrutura adequada, educação de qualidade, regras compreensíveis e políticas que estimulem investimento e produtividade sem abandonar quem ainda necessita de proteção.
Talvez seja justamente essa a grande oportunidade brasileira. Somos um país com enorme produção de alimentos, abundância de recursos naturais, uma matriz energética relativamente limpa, mercado consumidor expressivo e possibilidades importantes na transição para uma economia de baixo carbono. O Banco Mundial identifica no país oportunidades relacionadas à agricultura sustentável, energia, infraestrutura, inclusão financeira e economia verde. Transformar essas vantagens em produtividade, empregos qualificados e melhores condições de vida exigirá continuidade, planejamento e escolhas que ultrapassem governos e disputas eleitorais.
O Brasil não precisa escolher entre crescimento e justiça social. Precisa aprender a fazer com que um alimente o outro. Crescer para arrecadar mais, investir melhor e gerar oportunidades. Proteger para impedir que a pobreza destrua possibilidades antes mesmo que elas possam surgir. Educar para reduzir dependências. Qualificar para aumentar produtividade. Criar empregos para transformar assistência em autonomia sempre que isso for possível.
Porque o desenvolvimento verdadeiro não acontece apenas quando o gráfico do PIB aponta para cima.
Acontece quando uma empresa decide investir e encontra condições para fazê-lo. Quando um trabalhador consegue um emprego melhor. Quando uma família deixa uma situação de pobreza. Quando um jovem recebe educação capaz de ampliar suas escolhas. Quando quem necessita encontra proteção e quem pode caminhar sozinho encontra oportunidades para fazê-lo.
Opinião do autor
“Na minha visão, o Brasil precisa voltar a crescer de maneira consistente. Mas o grande desafio não é apenas fazer a economia crescer. É construir um país no qual o crescimento econômico e o progresso social avancem juntos. Uma nação verdadeiramente rica não é aquela que simplesmente produz mais, mas aquela que consegue transformar sua riqueza em oportunidades, dignidade e melhores condições de vida para sua população.”
Eugênio Oliveira
Blog Entre Linhas & Vivências




