Há histórias que aprendemos nos livros.
Outras, aprendemos vivendo.
Mas existem aquelas que chegam até nós pela voz de quem amamos. São histórias que não trazem data, nem autor conhecido, mas carregam uma sabedoria que atravessa gerações.
Meu pai contava uma delas com tanta convicção que, durante muitos anos, sempre que via alguém trabalhando exageradamente, apenas acumulando bens e esquecendo de viver, ela voltava à minha memória.
Era a história de João Fernandes.
Conta-se que havia um homem muito trabalhador. Levantava antes do nascer do sol e encerrava o dia quando a noite já havia tomado conta da paisagem. Seu maior prazer era acumular riquezas.
Todas as manhãs, antes de iniciar a jornada, ele caminhava até um lago para contemplar o nascer do sol.
Era um ritual.
Silêncio.
Água calma.
Os primeiros raios dourados iluminando o horizonte.
Mas havia algo estranho.
Sempre que o sol surgia, uma voz misteriosa parecia ecoar sobre as águas.
— Trabalha… trabalha… que é para João Fernandes…
O homem olhava para todos os lados.
Não via ninguém.
No dia seguinte, a mesma coisa.
— Trabalha… trabalha… que é para João Fernandes…
Aquilo começou a perturbá-lo.
Quem seria João Fernandes?
Por que aquela frase insistia em persegui-lo?
Mesmo intrigado, continuou fazendo exatamente o que sempre fizera.
Trabalhava cada vez mais.
Comprava terras.
Guardava dinheiro.
Enchia baús.
Adquiria bens.
Enquanto sua fortuna crescia, sua vida diminuía.
Não tinha tempo para conversar.
Não tinha tempo para a família.
Não tinha tempo para os amigos.
Não tinha tempo sequer para admirar o sol que tanto gostava de contemplar.
Sua existência passou a girar em torno daquilo que possuía.
O tempo seguiu seu curso.
Certo dia, decidiu mudar de cidade.
Vendeu propriedades.
Transformou todos os seus bens em ouro, moedas e objetos valiosos.
Tudo foi cuidadosamente colocado em grandes baús.
Embarcou num navio rumo ao novo destino.
Mas o destino, esse velho contador de histórias, costuma escrever capítulos que nenhum homem consegue prever.
No meio do oceano, uma forte tempestade caiu sobre o navio.
As ondas cresceram.
A embarcação começou a fazer água.
O desespero tomou conta dos passageiros.
Em pouco tempo, o navio desapareceu nas profundezas do mar.
Ninguém sobreviveu.
Toda aquela fortuna, construída ao longo de uma vida inteira de trabalho, desapareceu junto com ele.
Ou quase toda.
Dias depois, a correnteza levou vários daqueles baús até uma praia distante.
Ali morava um homem conhecido por todos.
Seu nome era João Fernandes.
Mas João Fernandes era o oposto daquele trabalhador.
Não gostava de trabalhar.
Vivia de favores.
Dependia da boa vontade dos parentes.
Passava os dias sem produzir praticamente nada.
Naquela manhã, caminhava sem rumo pela praia quando avistou algo brilhando ao longe.
Eram baús.
Muitos baús.
Quando conseguiu abri-los, encontrou uma fortuna.
O trabalho de uma vida inteira.
Uma riqueza construída por outro homem.
Foi então que, segundo meu pai dizia, finalmente fez sentido aquela voz que surgia todas as manhãs sobre o lago.
— Trabalha… trabalha… que é para João Fernandes.
Talvez essa história nunca tenha acontecido.
Ou talvez tenha acontecido milhares de vezes, apenas com personagens diferentes.
Porque João Fernandes existe em muitas formas.
Às vezes, é alguém que recebe aquilo que outro passou a vida inteira acumulando.
Às vezes, é o destino mostrando que ninguém controla o amanhã.
E, muitas vezes, João Fernandes somos nós mesmos quando percebemos, tarde demais, que gastamos toda a nossa energia construindo um patrimônio, enquanto deixávamos de construir lembranças.
A moral da história
Meu pai nunca contou essa história para condenar o trabalho.
Pelo contrário.
Ele sempre acreditou que o trabalho dignifica o homem.
O que ele criticava era o excesso.
O apego.
A ilusão de que a vida pode ser guardada dentro de cofres, escrituras ou contas bancárias.
Hoje, olhando para trás, compreendo que a riqueza mais valiosa nunca esteve nos baús daquele homem.
Ela estava nas horas que ele deixou de viver.
Nos abraços que não deu.
Nas conversas que adiou.
Nos filhos que talvez tenham crescido esperando sua presença.
Nos amigos que deixaram de compartilhar sua companhia.
Nos momentos simples que jamais voltariam.
A opinião deste que escreve
Vivemos numa sociedade que nos incentiva a produzir cada vez mais.
Trabalhar é necessário.
Planejar o futuro também.
Mas existe uma diferença enorme entre construir uma vida e apenas acumular bens.
Desta vida não levamos absolutamente nada do que possuímos.
Nenhum imóvel.
Nenhum automóvel.
Nenhuma conta bancária.
Nenhum cofre.
Levamos apenas aquilo que fomos capazes de viver e deixar no coração das pessoas.
Talvez o verdadeiro patrimônio seja chegar ao fim da caminhada cercado pelos filhos, pela família, pelos amigos e pelas boas lembranças construídas ao longo da existência.
Porque dinheiro compra conforto.
Mas não compra tempo.
Não compra presença.
Não compra amor.
Não compra a oportunidade de voltar e viver aquilo que foi adiado.
Sempre que me lembro da história contada por meu pai, a frase continua ecoando em minha memória.
“Trabalha… trabalha… que é para João Fernandes.”
E ela me faz perguntar:
Estamos construindo uma vida… ou apenas enchendo os baús que um dia poderão ficar para outro João Fernandes qualquer?
Eugênio Oliveira




